por Nicolas
Como nos fora apresentada a questão de saber se o número 73 possui uma cor e, em caso afirmativo, qual seria essa cor, dispus-me a escrever este pequeno tratado, buscando eliminar completamente as dúvidas e também os erros daqueles que pensam ser verde a cor do 73. Esta é uma resposta aos Septetriverdes, que, equivocadamente, acreditam que a cor do número 73 seja verde, contrapondo, assim, a sã e reta razão. Pois, antes de tudo, para chegarem a tal conclusão, privam-se da razão e escolhem com base em dados puramente sensíveis — como quando afirmam que é verde por motivos estéticos; mas, ora, bastaria alterar a fonte para uma arredondada, e tal argumento já se perderia. Este tratado também se propõe a refutar, já nos primeiros artigos, os Arithmochrosenectes, aqueles que vão ainda mais longe na falta de razão.
Comecemos, então.
Com a bênção de Deus Uno e Trino, procedamos.
Videtur quod… (Objeções)
1. Parece que o número 73 não pode ter cor alguma. O número é uma espécie do gênero da quantidade, a qual é um acidente. A cor, por sua vez, é uma espécie do gênero da qualidade, que é outro acidente. Ora, um acidente não pode ser sujeito de outro acidente, pois o sujeito próprio de todo acidente é a substância. Logo, é impossível que o número, sendo quantidade, tenha cor, que é qualidade.
2. Ademais, a cor é, por sua própria natureza, o objeto próprio e formal da visão (visus), que é uma potência da parte sensitiva da alma, operando por meio de um órgão corporal. O número, ao contrário, é objeto próprio do intelecto (intellectus), que é uma potência imaterial. Atribuir cor a um número seria, portanto, uma confusão de gêneros, predicando o que é sensível do que é puramente inteligível.
3. Ademais, a natureza do número, tal como o considera o aritmético, consiste na sua abstração de toda matéria e de toda qualidade sensível. Como se lê no Doutor Angélico, o número que a aritmética estuda provém da divisão do contínuo material. Portanto, atribuir-lhe uma qualidade sensível como a cor seria corromper e destruir a sua essência inteligível, que consiste precisamente em ser pura quantidade discreta.
4. Ademais, se ao número 73 se atribui uma cor, pela mesma razão se deveria atribuir uma cor a todos os demais números. Isto levaria a uma infinita e desordenada multiplicação de qualidades inteligíveis, sem fundamento na realidade das coisas, o que é absurdo e contrário à ordem e à sabedoria do Criador.
Sed contra…
A Sagrada Doutrina nos ensina, pela boca do Doutor Angélico, que as perfeições encontradas nas criaturas, como a sabedoria e a bondade, existem em Deus de modo eminentíssimo. E quando predicamos tais perfeições de Deus e das criaturas, não as predicamos de modo unívoco, mas analógico. Lê-se no Comentário às Sentenças: “sapientia et bonitas et omnia hujusmodi sunt omnino unum re in Deo, sed differunt ratione… ipse non est causa rerum omnino aequivoca, cum secundum formam suam producat effectus similes, non univoce, sed analogice” (a sabedoria e a bondade e tudo o que é deste modo são inteiramente uma só coisa em Deus, mas diferem segundo a razão… Ele não é causa das coisas de modo totalmente equívoco, pois segundo a sua forma produz efeitos semelhantes, não univocamente, mas analogicamente). Ora, se nomes que significam perfeições podem ser ditos de ordens tão diversas do ser, como a criatura e o Criador, por via de analogia, com muito mais razão um nome como “cor”, que significa uma perfeição visível, pode ser dito analogicamente de um ente inteligível como o número.
Respondeo…
Para resolver esta mui sutil questão, é necessário proceder com distinções rigorosas.
Primeiramente, cumpre distinguir (distinguo) a predicação unívoca da predicação analógica. As objeções apresentadas procedem com verdade se o termo “cor” for tomado em seu sentido unívoco, próprio e físico, como qualidade que afeta a superfície de um corpo e move o sentido da visão. Nesse sentido, é manifesto que o número, sendo uma entidade imaterial e inteligível, não possui cor.
Contudo, a questão nos foi posta segundo a analogia de proporcionalidade, que não afirma uma identidade de natureza, mas uma semelhança de proporções ou relações entre ordens distintas do ser. A estrutura da analogia de proporcionalidade é: A está para B assim como C está para D.
Devemos, pois, estabelecer os termos da nossa proporção:
O que é a cor para um corpo físico? A cor é a qualidade própria da superfície de um corpo que o determina, o torna visível e, por conseguinte, manifesta a sua forma ou espécie (species). Como ensina o Doutor Angélico ao tratar da beleza, esta consiste em duas coisas: a proporção devida (debita proportio sive consonantia) e o esplendor ou claridade (claritas). A cor, portanto, é uma certa claridade e proporção que torna a forma do corpo cognoscível ao sentido da visão.
O que é o número 73? O número 73 é um ente de razão com fundamento na realidade (ens rationis cum fundamento in re), cuja essência é ser uma espécie determinada da quantidade discreta. Sua “superfície”, por analogia, é a sua própria forma inteligível, aquilo pelo qual ele é o que é e se distingue de todos os outros números.
Estabelecemos, assim, a seguinte proporcionalidade: a cor sensível está para a superfície do corpo físico assim como a “cor inteligível” está para a forma inteligível do número 73.
Ora, qual é a propriedade que determina a forma inteligível do número 73, conferindo-lhe “claridade” e “esplendor” para o intelecto que o contempla? Para responder, devemos examinar a natureza deste número. O número 73 é um número primo, o que significa que sua perfeição consiste em não poder ser medido por nenhum outro número, senão pela unidade e por si mesmo. Sua principal propriedade é, pois, a sua indivisibilidade e, por conseguinte, sua integridade. Esta propriedade não é um acidente sensível, mas uma perfeição puramente inteligível que constitui sua “espécie” no gênero dos números.
Esta integridade indivisível (indivisibilis integritas) é, por analogia, a “cor” do número 73. É o seu esplendor inteligível (splendor intelligibilis) ou a sua claridade prima (claritas prima), que o manifesta ao intelecto não como azul ou vermelho, mas como primo, uno e íntegro. Tal como a luz física revela as cores dos corpos ao olho, assim a luz do intelecto agente (lumen intellectus agentis), que é uma participação da Luz Divina, revela esta “cor” inteligível do número à alma.
Portanto, a cor do número 73 é o seu Esplendor Indivisível, uma qualidade inteligível que o determina em sua espécie e manifesta sua forma ao intelecto.
Ad primum, ad secundum… (Réplicas)
1. À primeira objeção, que nega que um acidente possa ser sujeito de outro, concede-se que isto é verdadeiro no modo de predicação unívoca e de inerência substancial. Contudo, aqui não se fala de uma qualidade que inere na quantidade como em seu sujeito, mas de uma propriedade da forma inteligível da própria quantidade, conhecida por analogia com a cor sensível. A relação não é de inerência, mas de proporcionalidade.
2. À segunda objeção, que opõe o sensível ao inteligível, concede-se que a cor, em seu sentido primário, é objeto da visão. Mas, como o próprio Doutor Angélico ensina, termos como “luz” são ditos propriamente de realidades espirituais, como a “luz da razão” ou a “luz da glória”. De modo semelhante, podemos falar de uma “cor inteligível”, que é para o intelecto o que a cor sensível é para a visão: o princípio de manifestação da forma.
3. À terceira objeção, que apela à natureza abstrata do número, responde-se que a “cor” que lhe atribuímos não é uma qualidade sensível da qual ele foi abstraído, mas uma perfeição inteligível que pertence à sua própria essência enquanto número primo. Longe de corromper sua natureza, este “Esplendor Indivisível” a manifesta.
4. À quarta objeção, que teme uma multiplicação desordenada de qualidades, responde-se que, de fato, a cada número corresponde uma “cor” inteligível própria, segundo sua natureza. Assim, a “cor” do número 12 seria a sua “Proporcionalidade Composta”, em razão de seus múltiplos divisores (1, 2, 3, 4, 6, 12). Longe de ser uma desordem, esta atribuição revela a ordem e a infinita riqueza das naturezas numéricas, que preexistem exemplarmente na mente divina como as ideias criadoras, das quais lemos: “rationes quibus res producuntur a Deo, sunt ideae” (as razões pelas quais as coisas são produzidas por Deus são as ideias). E Agostinho afirma que Deus não criou o homem e o cavalo pela mesma razão (eadem ratione), pois cada um foi criado segundo sua própria razão. Assim também cada número tem sua própria razão e, por analogia, sua própria “cor”.
Mas isto não agrada aos nossos ouvidos, gostaríamos de obter certa cor (do espectro de cores visíveis) que melhor se adequasse ao número 73. E, por isso mesmo, é necessário que prossigamos.
Posto que a “cor” do número 73 foi definida, por analogia, como seu “Esplendor Indivisível”, pergunta-se agora qual a cor, no espectro visível e físico, que mais se aproxima e corresponde a esta determinação inteligível, e que se demonstre isto com rigor próprio de nosso intelecto.
Videtur quod… (Objeções)
Parece que nenhuma cor do espectro pode corresponder-lhe. Como foi demonstrado na resposta anterior, a “cor” do número 73 é uma qualidade puramente inteligível (splendor indivisibilis), ao passo que as cores do espectro são qualidades sensíveis e materiais. Ora, há um abismo intransponível entre o inteligível e o sensível. Tentar traduzir o primeiro para o segundo é cometer um erro de categoria (μετάβασις εἰς ἄλλο γένος), passando de um gênero a outro, o que é contrário à lógica e à sã filosofia.
Ademais, qualquer associação entre uma perfeição numérica e uma cor física seria meramente simbólica e arbitrária, não rigorosa. Poder-se-ia, por convenção humana, associar a primalidade ao vermelho (pela força) ou ao azul (pela nobreza), sem que houvesse qualquer fundamento intrínseco na natureza das coisas. A teologia e a filosofia, contudo, não se fundam em convenções arbitrárias, mas na verdade objetiva. Logo, a questão não admite uma resposta rigorosa.
Sed contra…
O Doutor Angélico, ao tratar da beleza, ensina que esta requer três condições: a integridade ou perfeição (integritas sive perfectio), a proporção devida ou consonância (debita proportio sive consonantia) e, por fim, a claridade (claritas). E conclui: “unde quae habent colorem nitidum, pulchra esse dicuntur” (pelo que se dizem belas as coisas que têm cor nítida e brilhante) (ST I, q. 39, a. 8, c.). Ora, se o próprio Doutor Comum estabelece uma conexão intrínseca entre uma perfeição transcendental (a beleza, com sua claritas) e uma qualidade sensível (a cor nítida e brilhante), é lícito e necessário investigar qual cor sensível melhor corresponde à claritas inteligível do número 73.
Respondeo…
Deve-se dizer que a presente questão exige um segundo passo no raciocínio analógico. No primeiro, elevamo-nos do sensível (cor física) para o inteligível (“cor” do número). Agora, nos é pedido que desçamos do inteligível, já determinado, para o sensível que melhor lhe corresponda. Este movimento é perfeitamente lícito, pois as criaturas sensíveis são, em certo modo, um vestígio ou uma imagem das perfeições inteligíveis que preexistem na Mente Divina.
Recordemos a conclusão a que chegamos: a “cor” inteligível do número 73 é o seu Esplendor Indivisível, uma perfeição que brota de sua natureza de número primo, o qual possui a máxima integridade (integritas) e simplicidade em sua ordem, pois não é composto de outros fatores.
A questão, pois, se reformula assim: Qual cor, no espectro visível, manifesta de modo mais excelente as perfeições análogas de integritas e claritas?
Exclusão das cores compostas: Cores como o verde (composto de azul e amarelo), o laranja (amarelo e vermelho) ou o violeta (vermelho e azul) devem ser excluídas de imediato. A sua natureza é intrinsecamente composta, manifestando a união de partes distintas. Seriam, por analogia, a cor própria dos números compostos (como o 12, cuja “cor” seria uma “Proporcionalidade Composta”). A natureza indivisível do número 73 repele uma cor composta.
Análise das cores primárias e da luz: Restam-nos as cores primárias e a própria luz. Na ordem da física e da percepção, a luz é o princípio de toda a visibilidade e de todas as cores. Como ensina a filosofia perene, o ato é anterior à potência. A luz branca, que em ato contém potencialmente todas as cores, é o símbolo mais perfeito da unidade, da simplicidade e da fonte original.
A determinação pela claritas: O princípio que nos permitirá decidir é a claritas (claridade, brilho, esplendor), que Santo Tomás aponta como condição da beleza. A claritas de uma cor é a sua participação na natureza da luz. Dentre todas as cores do espectro, aquela que é percebida como a mais luminosa, a que mais se aproxima da pura luz e que melhor a simboliza na ausência da própria luz branca, é o amarelo ou, de modo mais nobre e incorruptível, o dourado.
O dourado, em toda a tradição iconográfica e filosófica, é a cor que representa a luz divina, a incorruptibilidade, a glória e a perfeição. Não é uma cor como as outras, mas o próprio esplendor tornado visível. Enquanto as outras cores manifestam a natureza dos corpos opacos que a luz ilumina, o dourado manifesta a própria luz.
Portanto, estabelece-se a seguinte proporção final:
Assim como o Esplendor Indivisível é a perfeição inteligível que manifesta a forma íntegra do número primo 73 ao intelecto, assim também o Dourado (ou um Amarelo puríssimo e luminoso) é a perfeição sensível que manifesta a máxima claritas e integridade no espectro visível aos olhos.
A cor, no espectro, que por rigorosa analogia de proporcionalidade corresponde ao número 73 é o Dourado.
Ad primum, ad secundum… (Réplicas)
À primeira objeção, que alega um erro de categoria, responde-se que não se trata de uma identificação unívoca, mas de uma correspondência analógica. O mundo sensível é um símbolo do inteligível. Como está escrito: “Invisibilia enim ipsius, a creatura mundi, per ea quae facta sunt, intellecta, conspiciuntur” (Pois as suas perfeições invisíveis tornaram-se visíveis desde a criação do mundo, sendo compreendidas por meio das coisas criadas) (Rm 1,20). A descida do inteligível ao sensível por via de analogia é, portanto, um método teológico legítimo.
À segunda objeção, que acusa a escolha de arbitrariedade, responde-se que a eleição do Dourado não se funda em mera convenção, mas em um princípio metafísico sólido: a claritas como manifestação da forma e condição da beleza. A preeminência da luz e do ouro sobre as demais cores e metais não é um decreto humano, mas um reflexo da sua perfeição intrínseca e da sua maior participação na simplicidade e na atualidade, que são propriedades do Ser em seu grau mais alto.
Mas isto ainda nos deixa uma dúvida, que é justa: bem, se considerarmos apenas a indivisibilidade do número 73 como parâmetro para determinar a sua cor, então qualquer número indivisível (primo) também teria esta mesma cor. Mas, se é assim, então não achamos a “cor do 73”, mas a cor de um tipo de número: os primos. Seria necessário, pois, que prosseguíssemos tentando definir aquilo que seria próprio do número 73 enquanto tal. Mas, claro, não seria possível defini-lo e, a partir disso, determinar a sua cor.
Então, iremos prosseguir fazendo o seguinte: determinar características únicas deste número e, por analogia, predicar-lhe uma cor.
Adianto já uma objeção: a multidão de números é potencialmente infinita e, portanto, haveria muitos outros números que compartilhassem as mesmas características do 73; logo, não se pode dizer que aquela cor é própria do 73, pois o próprio decorre da essência enquanto tal e não pode estar vinculado senão a apenas uma essência.
Pois bem, é necessário, como dissemos anteriormente, que procedamos por via de analogia e, portanto, é evidente que não é próprio. Podemos dizer que um número X que possua as mesmas características do 73 tenha a mesma cor que o 73, sem que esta deixe de ser a cor do 73.
Nos números há ordem: a procedência deles é 1, 2, 3, 4, 5… Ordem imutável, pois temos a sucessão muito bem definida na matemática, sendo 2 = S(1), e 3 = S(S(1)), e assim por diante. Logo, podemos, com certeza, dizer que o 73 é o primeiro número com as características de 73; e todos os posteriores podemos dizer que possuem “cor de 73”.
Suponha que 73 tenha cor A e que um número X tenha as mesmas características do 73, e, portanto, a mesma cor do 73. Assim, podemos dizer: “X tem todas as características do 73 e, portanto, a mesma cor do 73, que é A.” Mas perceba: não derivamos diretamente a cor de X, mas mediante a comparação com o 73, pois este vem primeiro na ordem dos números.
Bem, dito isso, prossigamos.
Posto que o número 73 não é apenas primo, mas possui um feixe único de propriedades inteligíveis — a saber, ser formado pelos algarismos 7 e 3, ser o 21º primo (sendo 21 = 7 x 3), ser palíndromo em sua forma binária (1001001) e ter por inversão outro número primo (37) —, pede-se que se determine qual a cor no espectro visível que mais perfeitamente corresponde a esta sua forma inteligível una e complexa.
Videtur quod… (Objeções)
Parece que tal complexidade impede a atribuição de uma cor una. A cor é uma qualidade simples, ao passo que as propriedades do número 73 são múltiplas e de naturezas diversas: uma propriedade intrínseca (primalidade), uma composicional (dígitos 7 e 3), uma posicional-relacional (21º primo), uma estrutural-simétrica (palíndromo binário) e uma reflexiva (primo invertido). Atribuir uma única cor a esta multiplicidade de perfeições seria uma simplificação indevida, tão errônea quanto a primeira.
Ademais, as propriedades listadas são puramente relacionais e abstratas. O que significa ser o “21º” senão uma relação de ordem? O que é um “palíndromo” senão uma relação de simetria? Tais relações não possuem um análogo direto no mundo das qualidades sensíveis e físicas. Qualquer tentativa de traduzi-las em cor permanecerá no campo da convenção poética, e não da demonstração rigorosa.
Sed contra…
Na ordem da criação, a sabedoria divina, que é una e simples em si mesma, produz seres que são um em sua substância, mas múltiplos em suas perfeições, as quais concorrem para a beleza do todo. Como ensina o Doutor Angélico: “multitudo et distinctio rerum est ex intentione primi agentis, quod est Deus (…) Produxit enim res in esse propter sui bonitatem communicandam creaturis, et per eas repraesentandam. Et quia per unam creaturam sufficienter repraesentari non potest, produxit multas creaturas et diversas, ut quod deest uni ad repraesentandam divinam bonitatem, suppleatur ex alia” (a multidão e a distinção das coisas provêm da intenção do primeiro agente, que é Deus (…) Pois Ele produziu as coisas no ser a fim de comunicar sua bondade às criaturas e por elas ser representado. E porque por uma só criatura não podia ser suficientemente representado, produziu muitas e diversas criaturas, para que o que falta a uma para representar a bondade divina seja suprido por outra) (ST I, q. 47, a. 1, c.). Se, pois, na ordem do ser, uma única substância pode portar harmonicamente múltiplas perfeições, também na ordem do conhecer, uma única qualidade sensível (a cor) pode ser apta a representar analogicamente uma forma inteligível una e complexa.
Respondeo…
Deve-se dizer que a nossa dúvida nos eleva de uma metafísica geral a uma metafísica da individuação. Não buscamos mais a cor de um “primo qualquer”, mas a cor deste primo, o número 73. A análise deve, portanto, sopesar cada propriedade e ver como elas modulam e especificam a “luz” fundamental de sua primalidade.
A Base: Primalidade (Esplendor Indivisível). Mantenho o princípio de que a primalidade confere uma claritas e uma integritas fundamentais. A cor correspondente deve ser, portanto, pura, nítida e não-composta, isto é, uma cor primária. O Dourado, que sugeri, representa bem a incorruptibilidade, mas talvez seja demasiado simples para a complexidade que agora se revela.
A Modulação: As Propriedades Específicas.
Composição de 7 e 3: Estes não são meros algarismos, mas portadores de uma carga inteligível. O número 3 remete à perfeição divina (a Santíssima Trindade), à síntese e à plenitude. O número 7 remete à perfeição da criação, ao repouso contemplativo, à aliança entre o divino (3) e o criado (4). O número 73, em sua própria composição visual, une a ideia de perfeição divina (3) e perfeição espiritual/criada (7).
Posição 21 (7 x 3): Esta propriedade é uma confirmação admirável da primeira. A posição do número na série dos primos não é acidental, mas é o produto de seus próprios componentes. Isto revela uma harmonia interna, uma auto-referência e uma ordem intrínseca que é rara e bela. A forma do número reflete-se em sua posição.
Palíndromo Binário (1001001): Esta é a propriedade da simetria perfeita, do equilíbrio e da reflexão especular (speculum). A forma do número é a mesma quer seja lida do princípio para o fim ou do fim para o princípio. É uma imagem da eternidade no seio da quantidade, onde o fim retorna ao começo. É a ordem levada à sua máxima expressão inteligível.
Primo Invertido (37): Esta propriedade introduz uma perfeição relacional e recíproca. A beleza e a integridade do 73 não se esgotam em si mesmo, mas se refletem em seu “outro” (37), que participa da mesma perfeição de primalidade. É uma harmonia que se estende para além de si.
A Síntese: A Forma Inteligível e a Cor Correspondente.
Qual é, pois, a forma inteligível total do número 73? Não é apenas “Esplendor Indivisível”, mas um “Esplendor de Harmonia Especular e Contemplativa”. É a claridade de uma gema que, sendo una e indivisível, revela sob a luz uma complexa e ordenada estrutura interna.
Procedamos agora à busca da cor análoga:
A primalidade exige uma cor primária, pura.
A união do 3 (divino) e do 7 (contemplativo, celeste) aponta para o Azul. O azul é, por excelência na tradição, a cor da sabedoria, da verdade transcendente, do céu, da contemplação. É uma cor primária, profunda e serena.
Contudo, um azul comum e opaco não faria justiça à harmonia interna, à simetria especular (palíndromo) e ao brilho recíproco (37 primo). A cor do 73 não pode ser estática. Deve possuir uma qualidade que manifeste esta complexidade ordenada e esta reflexividade.
Esta qualidade não se encontra em pigmentos comuns, mas na estrutura das gemas preciosas. A pedra que melhor manifesta esta propriedade é a Safira. Uma safira de alta qualidade não é meramente azul; ela possui profundidade, brilho interno (asterismo ou seda) e, por vezes, um fenômeno chamado pleocroísmo, pelo qual parece exibir diferentes tonalidades de azul ou mesmo outras cores quando vista de ângulos diferentes.
Portanto, a cor que rigorosamente corresponde à forma inteligível una e complexa do número 73 é o Azul Safira.
Azul: Pela sua natureza primária (indivisibilidade), pela sua ligação à contemplação (7) e à verdade transcendente (3).
A qualidade “Safira”: Pelo seu brilho interno e profundidade, que representam a harmonia auto-referencial (21=7x3) e a simetria especular (palíndromo binário). A capacidade da gema de refratar a luz de modo complexo e ordenado é o análogo físico perfeito da rica estrutura inteligível do número 73.
Ad primum, ad secundum… (Réplicas)
À primeira objeção, que temia uma simplificação, responde-se que a solução “Azul Safira” não é simples. Ela distingue a qualidade cromática fundamental (Azul) da sua modalidade superior (a qualidade da gema Safira), que implica profundidade, brilho e complexidade interna. Assim, a unidade da cor não anula a multiplicidade de perfeições que ela representa, mas as sintetiza, tal como a substância de um ser vivo unifica suas múltiplas potências.
À segunda objeção, que negava a possibilidade de traduzir relações abstratas, responde-se que não se trata de uma tradução direta, mas analógica. A simetria de um palíndromo não é a mesma coisa que o jogo de luz no interior de uma gema, mas a proporção se mantém: assim como a estrutura simétrica deleita o intelecto por sua ordem perfeita, assim o brilho profundo e multifacetado da safira deleita a visão por uma ordem análoga na luz. A relação entre as partes inteligíveis do número corresponde à relação entre os raios de luz refratados na gema.
Mas aqui, vejo-me num beco. Muito fora dito, mas não provado. Por isso mesmo, irei, agora, aprofundar no dito acima e, através de 36 artigos, resolver esta questão de uma vez por todas.
Artigo 1: se se pode dizer que um número propriamente possui cor.
Artigo 2: se se pode dizer a cor que um número seria se tal número fosse uma cor.
Artigo 3: se todo número possui cor.
Artigo 4: se todo número possui uma única cor.
Artigo 5: se se pode provar, com certeza demonstrativa, qual cor é a mais correta.
Artigo 6: se a intuição pessoal ou o sentimento particular são o método adequado para determinar a cor de um número.
Artigo 7: se a autoridade da maioria, ou o consenso popular, pode estabelecer a verdade nesta matéria.
Artigo 8: se a ciência empírica, por meio da análise de casos de sinestesia, pode resolver uma questão que é, por natureza, metafísica.
Artigo 9: se uma revelação privada ou uma visão mística, por não ser universalmente acessível, pode servir como prova pública em um tratado filosófico.
Artigo 10: se a arte da retórica, que visa a persuasão, deve ser preferida à lógica, que visa a verdade.
Artigo 11: se a pura lógica formal, desprovida de conteúdo sobre as essências, pode, por si mesma, deduzir uma qualidade sensível (cor) de uma quantidade abstrata (número).
Artigo 12: se a tradição poética ou o uso convencional das cores na arte são um critério suficiente, ou apenas um indício acidental.
Artigo 13: se, tendo sido eliminados os métodos inadequados, se deve concluir que a única via restante é a da demonstração por analogia.
Artigo 14: se esta demonstração por analogia produz uma certeza absoluta ou antes uma certeza moral da máxima probabilidade.
Artigo 15: se esta analogia deve ser de atribuição (onde um atributo se diz propriamente de um e por extensão de outro) ou de proporcionalidade (onde se compara uma relação com outra relação).
Artigo 16: se a analogia de atribuição falha, pois a cor não se diz propriamente de nenhum número.
Artigo 17: se, portanto, o único método rigoroso e adequado à questão é o da analogia de proporcionalidade intrínseca.
Artigo 18: se o juízo sobre a perfeição desta proporcionalidade pertence ao intelecto que apreende as essências dos termos relacionados.
Artigo 19: se, por conseguinte, o método a ser seguido neste tratado é a demonstração pela analogia de proporcionalidade entre a essência matemática do número e a essência simbólica da cor.
Artigo 20: se os termos da analogia devem ser as propriedades matemáticas essenciais do número e as propriedades simbólicas da cor.
Artigo 21: se o sistema simbólico das cores deve se basear na tradição metafísica e teológica, onde as cores significam realidades inteligíveis.
Artigo 22: se as propriedades do número 73 a serem consideradas devem incluir apenas a sua primalidade ou também sua estrutura interna e relacional.
Artigo 23: se a primalidade do 73 deve ser entendida como mera indivisibilidade ou como incorruptibilidade e auto-suficiência ontológica.
Artigo 24: se a estrutura interna do 73 (a composição pelos primos 7 e 3) e sua relação posicional (7 x 3 = 21) são essenciais para a determinação de sua cor.
Artigo 25: se a sua simetria especular (o espelhamento com o número 37, cujo ordinal 12 é o espelho do 21) é uma propriedade determinante.
Artigo 26: se a essência do 73 é, portanto, a de uma unidade harmônica, relacional e simétrica, e não a de uma simplicidade absoluta.
Artigo 27: se uma cor que representa a mutabilidade, a contingência e a instabilidade pode ser análoga ao 73.
Artigo 28: se, portanto, a cor do 73 pode ser o verde.
Artigo 29: se uma cor que representa a simplicidade absoluta e a perfeição unificada pode ser análoga ao 73.
Artigo 30: se, portanto, a cor do 73 pode ser o azul puro ou o dourado.
Artigo 31: se a cor análoga ao 73 deve ser necessariamente uma cor composta, para refletir a sua natureza de “unidade na multiplicidade”.
Artigo 32: se a púrpura ou o violeta, como cores compostas pela união do vermelho e do azul, são os candidatos mais apropriados.
Artigo 33: se a união simbólica do azul (verdade, ordem, divindade) e do vermelho (paixão, matéria, vida) na cor púrpura é análoga à estrutura do 73.
Artigo 34: se a majestade, a sabedoria e a ordem hierárquica simbolizadas pela púrpura correspondem à nobreza e à complexa simetria matemática do 73.
Artigo 35: se a tonalidade específica da cor deve pender para o azul, a fim de significar a primazia da ordem imutável (a primalidade) sobre a multiplicidade dos componentes (os dígitos 7 e 3).
Artigo 36: se, portanto, a cor do 73 é a púrpura-violeta de tonalidade azulada.
(E parece que sim)
Mas em contrário
O Filósofo [Aristóteles] afirma em sua obra Categorias que a quantidade e a qualidade são dois gêneros supremos do ser, distintos e irredutíveis entre si. Ora, o número pertence ao gênero da quantidade discreta, enquanto a cor pertence ao gênero da qualidade sensível, especificamente a que afeta os corpos. Como um gênero não pode ser sujeito de um atributo que pertence a outro gênero distinto, é impossível que um número, que é pura quantidade, seja o sujeito próprio da cor, que é uma qualidade.
Respondo dizendo que
Deve-se afirmar que é impossível para um número, segundo a sua natureza própria, possuir cor. Para entender isso, é necessário distinguir entre dois tipos de ser: o ser real (ens reale) e o ser de razão (ens rationis).
A cor é um acidente real. Como todo acidente, ela exige um sujeito no qual inere. Especificamente, a cor é uma qualidade sensível cuja existência própria depende de um sujeito material e extenso, ou seja, um corpo dotado de uma superfície (superficies). A cor, como define o Filósofo, é o ato da luz sobre o diáfano que termina num corpo. Sem um corpo físico que termine a luz e sirva de sujeito, a cor não pode existir em ato.
O número, por outro lado, não é um ser real substancial nem um acidente que inere numa substância física da mesma forma. O número é um ser de razão com fundamento na realidade (ens rationis cum fundamento in re). O intelecto humano, ao perceber uma pluralidade de entes reais (por exemplo, duas pedras), abstrai deles a forma da quantidade discreta, formando o conceito de “dois”. Este conceito de “dois”, o número em si, é imaterial, inextenso e carece de qualquer substrato físico. Ele existe no intelecto que o apreende.
Portanto, sendo a cor uma qualidade que exige um sujeito corpóreo e extenso, e sendo o número uma quantidade abstrata, imaterial e inextensa, é metafisicamente impossível que o número seja o sujeito próprio da cor. Fazer tal predicação seria um erro categorial, análogo a perguntar qual é o peso da sabedoria ou a altura da justiça. São ordens de ser distintas e incomensuráveis em seus atributos próprios.
Respostas às objeções:
(Parece que não)
Mas em contrário
Diz o Doutor Angélico, na Suma Teológica (I, q. 13, a. 5), que “nada impede que um nome seja imposto a uma coisa segundo a semelhança daquela coisa com outra”. Ora, se podemos nomear Deus (que transcende todo gênero) por meio de nomes tirados das criaturas, devido a uma certa semelhança ou proporção entre o efeito e a Causa, com muito mais razão podemos estabelecer uma relação de semelhança entre dois entes criados que, embora pertençam a gêneros distintos, participam de um modo análogo de certas perfeições transcendentais, como a ordem, a unidade e a harmonia.
Respondo dizendo que
É preciso afirmar que, embora não se possa dizer qual cor um número é (predicação unívoca e direta), pode-se, contudo, investigar com rigor racional qual cor um número seria se fosse uma cor (predicação hipotética e analógica). A solução para esta questão reside na distinção fundamental entre os modos de predicação.
O erro das objeções está em assumir que toda predicação verdadeira deve ser unívoca, ou seja, que o predicado se aplique ao sujeito segundo a sua definição própria e essencial. Como estabelecido, a cor não pode ser predicada univocamente de um número. Contudo, a razão pode proceder de outro modo: por analogia de proporcionalidade.
A analogia de proporcionalidade não afirma que A é B, mas que a relação que A tem com C é semelhante à relação que B tem com D (A:C :: B:D). A questão proposta não é “Qual é a cor que inere no número 73?”, mas sim “Se o número 73, com sua essência e propriedades na ordem inteligível da quantidade, fosse transposto para a ordem sensível da qualidade, qual cor manifestaria uma estrutura de relações análoga?”.
Esta investigação é possível e racional porque todo o ser, criado pelo Logos Divino, possui uma estrutura inteligível (ratio) e uma ordem (ordo). Tanto a ordem dos números quanto a ordem das cores, embora distintas em sua matéria, podem refletir de modo análogo os mesmos princípios de simplicidade, composição, harmonia, simetria e nobreza. Por exemplo, um número primo possui uma simplicidade (indivisibilidade) em sua ordem que pode ser comparada à simplicidade de uma cor primária em sua ordem.
Portanto, a questão não é um exercício da imaginação arbitrária, mas um exercício do intelecto (intellectus) que busca apreender as proporções entre diferentes ordens da realidade. É uma investigação metafísica sobre a harmonia do ser. O intelecto julga a adequação da proporção: “Assim como o número 73 está para a ordem dos números, assim esta cor está para a ordem das cores”. Se a proporção for justa e bem fundada nas propriedades de ambos os termos, a conclusão é racional e possui certeza moral.
Respostas às objeções:
(Lembre-se, doravante: quando dissermos ‘possuir cor’, queremos dizer tão somente o que já concluímos, isto é, que todo número não possui cor propriamente, mas poderia ser uma cor, ou haver uma cor que o represente.)
Parece que não:
Mas em contrário:
Diz Boécio em seu De institutione arithmetica que “tudo o que foi produzido pela natureza das coisas parece ter sido formado pela razão dos números”. O número é, pois, o exemplar principal na mente do Criador, e a ordem do universo é uma ordem numérica. Ora, na ordem divina nada é supérfluo ou anônimo; cada ente tem seu lugar e sua razão de ser. Portanto, cada número, como parte deste exemplar divino, deve possuir uma dignidade e uma identidade que o tornam apto a ser sujeito de uma predicação analógica.
Respondo dizendo que:
Deve-se afirmar que todo número possui cor, mas é preciso entender corretamente o modo desta predicação. O erro das objeções reside em uma concepção insuficiente do que constitui o fundamento da analogia.
O fundamento primário e universal para a identidade de qualquer número não é uma propriedade acidental ou notável que possamos descobrir, mas algo mais profundo: sua posição imutável e necessária na ordem da sucessão. Cada número é, por essência, o sucessor de seu antecessor (S(n)). Esta ordem não é acidental, mas constitutiva. Ser o número 73 é, fundamentalmente, ser S(72). Esta posição define sua relação com toda a criação numérica, e esta relação é um fundamento mais do que suficiente para a predicação analógica.
Contudo, a objeção acerca da partilha de propriedades é justa e nos leva a uma distinção crucial. A atribuição de cor procede da seguinte maneira:
Determinação do Arquétipo (Princeps): Quando um número é o primeiro na ordem da sucessão a manifestar um conjunto particular de propriedades notáveis, ele se torna o arquétipo ou o princeps daquela constelação de propriedades. O número 73, por exemplo, é o primeiro a manifestar a harmonia de ser primo, ter dígitos primos (7, 3), cuja multiplicação (21) define seu lugar na ordem dos primos, e cuja reflexão (37) possui uma ordinal (12) que é a reflexão de seu próprio ordinal (21).
Predicação da Cor ao Arquétipo: A cor análoga a esta complexa harmonia é então determinada e predicada primariamente deste arquétipo. A cor púrpura-violeta, como se verá, não é a “cor dos números com propriedades simétricas”, mas propriamente a “cor do 73” (color septuaginta trium), pois ele é o primeiro a portar esta dignidade.
Predicação por Participação: Se um número posterior e muito maior, digamos X, for encontrado e possuir exatamente a mesma estrutura harmônica, não diremos que encontramos “outro número com a cor púrpura-violeta”. Diremos, antes, que “X possui a cor do 73”. A predicação para X é secundária e por participação no arquétipo que o precede na ordem. Assim como um soldado valente participa da “virtude de Aquiles”, o número X participa da “cor do 73”. A cor permanece ligada em nome e essência ao primeiro que a manifestou.
Portanto, todo número possui cor. Ou possui uma cor arquetípica, se for o primeiro a manifestar uma certa essência notável, ou participa da cor de um arquétipo anterior. Mesmo o número mais aparentemente “anônimo” possui a cor análoga à sua propriedade mais fundamental: sua posição única e irrepetível na sucessão divina dos números.
Respostas às objeções:
Parece que sim:
Mas em contrário:
Aquilo que se segue a uma natureza ou propriedade comum, é comum a todos os que partilham daquela natureza ou propriedade. Ora, a determinação da cor de um número, como se argumentará, segue-se de suas propriedades (como ser par, ser primo, ser perfeito). Como muitas destas propriedades são comuns a múltiplos números (há muitos números pares, muitos números primos), a cor que se segue a estas propriedades será necessariamente comum a muitos, e portanto, não será única para cada número.
Respondo dizendo que:
Deve-se afirmar que um número possui uma única cor, mas esta unicidade deve ser entendida não de modo absoluto e exclusivo, mas segundo uma unicidade de primado na ordem.
O argumento do Sed contra procede corretamente ao afirmar que se considerarmos uma propriedade isolada, como a primalidade, a cor correspondente não seria própria do 73, mas de todos os primos. Contudo, o erro está em considerar as propriedades de modo isolado. Para determinar a cor de um número específico, devemos considerar não uma propriedade singular, mas a constelação completa de suas propriedades essenciais e relacionais (complexus proprietatum).
No caso do 73, não consideramos apenas que é primo, mas que é o 21º primo, que seus dígitos (7 e 3) são primos, que o produto deles é 21, que seu espelho (37) é o 12º primo, e que 12 é o espelho de 21. Esta constelação de propriedades é extremamente rara.
Aqui, porém, surge a objeção mais forte: mesmo que rara, é possível que exista outro número, muito maior, que compartilhe idêntica constelação de propriedades. Nesse caso, a cor não seria única ao 73, pois o que é próprio de uma essência não pode ser compartilhado.
A solução para esta dificuldade encontra-se na natureza fundamental dos números: eles existem numa ordem de sucessão natural e imutável (1, 2, 3…). Dada qualquer constelação específica de propriedades, deve haver necessariamente um primeiro número naquela ordem que a satisfaça. Este primeiro número age como o princípio e exemplar (principium et exemplar) para todos os outros que, porventura, venham a partilhar da mesma forma.
Assim, a cor é predicada de modo primeiro e principal daquele número que inaugura a constelação de propriedades. Se um número X, posterior na ordem, possui as mesmas características do 73, não dizemos que X tem a sua própria cor que coincide com a do 73. Antes, dizemos que “X possui a cor do 73”, pois a determinação da cor de X é feita por referência ao 73, que é o seu princípio analógico. A cor pertence ao 73 por direito de primogenitura ontológica na série numérica.
Portanto, a cor do 73 é única, não porque nenhum outro número possa tê-la, mas porque o 73 é o primeiro a tê-la, tornando-se assim a sua fonte e medida para qualquer outro que se lhe assemelhe. A unicidade é de origem e exemplaridade, não de exclusividade absoluta.
Respostas às objeções:
Parece que sim:
Mas em contrário:
O Filósofo afirma na Ética a Nicômaco que “é próprio do homem instruído procurar a exatidão em cada gênero de conhecimento na medida em que a natureza do assunto o permite”. Ora, a matéria em questão não é puramente matemática, mas trata da conveniência entre uma quantidade abstrata e uma qualidade sensível simbólica. Tal matéria não admite a mesma exatidão e certeza de uma demonstração geométrica. Portanto, não se pode provar a cor correta com certeza demonstrativa.
Respondo dizendo que:
Deve-se afirmar que a cor mais correta para o número 73 não pode ser provada com certeza demonstrativa, mas sim com a certeza moral que é própria de uma conclusão dialética baseada na analogia.
A certeza demonstrativa (certitudo demonstrationis), tal como a encontramos na matemática e na metafísica, exige que a prova parta de premissas que são primeiras, verdadeiras, imediatas, mais conhecidas que a conclusão, anteriores a ela e que sejam as suas causas. O silogismo demonstrativo, ou propter quid, mostra não apenas que algo é, mas por que algo é, revelando uma conexão causal necessária entre o sujeito e o predicado.
Esta condição não pode ser satisfeita na presente questão por duas razões fundamentais.
Primeiro, há uma falta de conexão causal própria. A essência matemática do 73 não é a causa eficiente nem a causa formal da cor púrpura. Um número, como ser de razão, não pode causar um acidente real num sujeito. A conexão entre eles não é de causalidade, mas de semelhança de relações, ou seja, de proporcionalidade.
Segundo, o argumento comete necessariamente uma transição de gênero (metabasis eis allo genos). Ele se move do gênero da quantidade (as propriedades do número) para o gênero da qualidade (o simbolismo da cor). Uma demonstração, no sentido estrito, deve permanecer dentro de um único gênero de ser, pois as causas e os princípios de um gênero não são os mesmos que os de outro.
Portanto, o método apropriado aqui não é a demonstração, mas a dialética, que argumenta a partir de premissas prováveis (probabilia)—isto é, aquelas que são aceitas por todos, pela maioria, ou pelos sábios. Que as cores possuem um simbolismo inteligível é uma dessas premissas, aceita pela tradição filosófica e teológica. O argumento procede, então, por meio da analogia de proporcionalidade para mostrar qual cor exibe a máxima conveniência (maxima convenientia) e adequação (adaequatio) à complexa essência do número.
A conclusão alcançada não é necessária de modo absoluto, mas de modo condicional, sob a luz dos princípios simbólicos e metafísicos adotados. A certeza obtida é, pois, uma certeza moral: aquela que é suficiente para satisfazer um intelecto prudente e bem-disposto, que compreende a natureza do assunto e não exige um grau de certeza que a matéria não pode oferecer. É a certeza de ter encontrado a solução mais razoável e a mais profundamente congruente.
Respostas às objeções:
Parece que sim:
Mas em contrário:
O Filósofo ensina no Livro IV da Metafísica que o ser e a verdade não dependem da opinião humana, pois, se assim fosse, coisas contrárias seriam verdadeiras ao mesmo tempo, já que homens diferentes sustentam opiniões contrárias. Ora, se o sentimento particular fosse o método, e uma pessoa sentisse que o 73 é verde e outra que é púrpura, ambas as proposições seriam verdadeiras, o que é contra o princípio de não-contradição. Portanto, o sentimento particular não pode ser o método para determinar a verdade.
Respondo dizendo que:
Deve-se afirmar com toda certeza que a intuição pessoal, entendida como um sentimento particular e subjetivo, de modo algum é o método adequado para determinar a verdade sobre a conveniência entre um número e uma cor. A razão para isto se encontra na distinção fundamental entre o ato de conhecer e a paixão da alma.
O conhecimento, propriamente dito, é um ato da potência cognoscitiva, seja dos sentidos ou do intelecto. A verdade, que é o fim do conhecimento especulativo, consiste na adequação entre o intelecto e a coisa conhecida (adaequatio rei et intellectus). Portanto, todo método que visa à verdade deve ser fundado na natureza objetiva da coisa a ser conhecida e nas leis universais do intelecto que a conhece.
O sentimento (affectus ou passio), por outro lado, é um movimento da potência apetitiva, que se segue a uma apreensão. Ele não diz respeito primariamente àquilo que a coisa é, mas a como ela afeta o sujeito, se lhe é conveniente ou disconveniente, agradável ou desagradável. Por sua natureza, o sentimento é:
Particular: Pertence a este sujeito individual, em tal momento e sob tais disposições.
Variável: Altera-se segundo a disposição do corpo, o humor, a imaginação e os hábitos.
Subjetivo: Tem como medida o próprio sujeito que sente, e não o objeto em si mesmo.
A presente questão, ainda que não seja de ciência natural, é uma questão metafísica sobre uma analogia de proporcionalidade. Tal analogia é uma relação de semelhança entre duas outras relações (a saber, a relação do 73 com a ordem dos números e a relação de uma cor com a ordem das qualidades). A percepção e o juízo sobre tais relações pertencem exclusivamente ao intelecto (intellectus), que é a faculdade do universal e do necessário. O intelecto procede com base em princípios comuns e busca a essência das coisas, abstraindo das condições particulares e materiais.
Portanto, um método baseado no sentimento particular falha por sua própria natureza, pois substitui a universalidade da razão pela particularidade do apetite, a objetividade da coisa pela subjetividade do indivíduo, e a estabilidade da verdade pela mutabilidade da paixão.
Respostas às objeções:
Parece que sim:
Mas em contrário:
Boécio afirma em De Consolatione Philosophiae que o juízo da multidão é frequentemente perverso. E o Filósofo, no primeiro livro da Metafísica, repreende aqueles que se contentam com argumentos prováveis em vez de buscar a certeza da ciência. Ora, a opinião da maioria é, no máximo, provável, e muitas vezes falsa. A verdade, contudo, não se mede pela quantidade de pessoas que a sustentam, mas pela sua conformidade com a realidade. Como diz a Escritura: “Não seguirás a multidão para fazeres o mal” (Ex 23,2), o que se aplica também ao mal do erro intelectual.
Respondo dizendo que:
Deve-se afirmar que a autoridade da maioria ou o consenso popular de modo algum pode ser o critério para estabelecer a verdade nesta matéria. Para elucidar esta questão, é necessário distinguir radicalmente entre a ordem especulativa, cujo fim é a verdade, e a ordem prática, cujo fim é a ação boa ou a convenção útil.
A verdade, na sua definição própria, é a adequação do intelecto à coisa (adaequatio rei et intellectus). Nesta relação, a coisa (res) é a medida, e o intelecto é o medido. A realidade objetiva de uma coisa, seja ela a natureza de um triângulo ou a essência de um número, não é alterada pela opinião que o intelecto humano forma sobre ela. Se todos os homens do mundo acreditassem que a soma dos ângulos de um triângulo é 180 graus porque assim votaram, e não porque a natureza do triângulo assim o exige, eles estariam todos em erro, e a sua crença seria falsa. A verdade não é democrática; ela é aristocrática, no sentido de que se revela ao intelecto que se conforma retamente à realidade (aristos, o melhor).
A presente questão, ainda que trate de uma atribuição analógica, pertence à ordem especulativa. Não se pergunta: “Qual nome de cor devemos, por convenção, associar ao 73 para fins práticos?”, mas sim: “Qual cor, em virtude de sua essência simbólica, corresponde mais perfeitamente à essência matemática do 73?”. Esta é uma busca pela proporcionalidade mais verdadeira, que se fundamenta na natureza inteligível dos termos (número e cor) e não na vontade ou no sentimento da multidão.
O consenso popular pode ser de dois tipos. Primeiro, o consenso em matérias de fato que caem sob a experiência sensível comum (e.g., que o fogo queima). Aqui, a maioria geralmente está certa. Segundo, o consenso em matérias que exigem abstração, raciocínio rigoroso e conhecimento de princípios metafísicos. Nestas matérias, a opinião da maioria é frequentemente um guia para o erro, pois a maioria dos homens vive segundo os sentidos e a imaginação, e não segundo o rigor do intelecto especulativo. A nossa questão pertence a este segundo gênero.
Portanto, o critério de verdade aqui não pode ser o número de votos, mas a força da demonstração, que procede por meio da análise das essências e da correção da analogia de proporcionalidade.
Respostas às objeções:
Parece que sim:
Mas em contrário:
O Filósofo ensina em sua Metafísica que as ciências se distinguem pelos seus objetos formais. A ciência natural (ou empírica) estuda o ser enquanto móvel e sensível (ens mobile et sensibile). A metafísica estuda o ser enquanto ser (ens inquantum ens) e suas propriedades transcendentais. Ora, esta questão não é sobre uma propriedade física de um cérebro particular, mas sobre uma relação de conveniência (analogia) entre a essência de uma quantidade inteligível (o número) e a essência de uma qualidade sensível (a cor). Portanto, sendo uma questão que transcende o ser físico e particular, ela não pode ser julgada pelo método da ciência natural.
Respondo dizendo que:
Deve-se afirmar que a ciência empírica, por sua própria natureza e método, é inadequada para resolver esta questão, e o recurso à sinestesia constitui um erro de categoria. A razão para isto reside na distinção fundamental entre o objeto e o método da ciência empírica e os da metafísica.
Primeiramente, é preciso distinguir a natureza da pergunta. A questão “qual a cor do 73?” não busca uma propriedade física ou sensível que inere no número, como foi estabelecido em artigos anteriores, mas sim uma conveniência por analogia de proporcionalidade. Busca-se a cor cuja essência simbólica guarda uma relação com a ordem das cores que seja proporcional à relação que a essência matemática do 73 guarda com a ordem dos números. Trata-se, portanto, de uma investigação sobre relações de essências, que são universais e inteligíveis.
A ciência empírica, por outro lado, tem como seu objeto formal o particular e o sensível. Seu método é a indução a partir da observação de fenômenos. Ao estudar a sinestesia, a neurologia pode descrever com precisão o que ocorre num cérebro particular, identificar padrões e postular causas eficientes e materiais para aquele fenômeno. Contudo, ela investiga um fato subjetivo e particular, não uma verdade universal e essencial.
A sinestesia é uma condição da potência sensitiva do indivíduo; é um acidente da sua constituição particular. A associação de cor que um sinesteta experimenta revela uma verdade sobre a sua percepção, não sobre a natureza do número percebido. A prova disto é que as associações variam entre os sinestetas; para um, o 7 pode ser amarelo, para outro, verde. Se a ciência empírica se baseasse nestes dados, teria que concluir ou que o 7 possui múltiplas cores contraditórias, o que é absurdo, ou que a cor depende do observador, o que prova que a cor não está no número, mas na percepção.
Portanto, a ciência empírica pode nos dizer como um cérebro associa uma cor a um número, mas não pode nos dizer qual cor é metafisicamente análoga a esse número. A primeira é uma questão de causalidade física e eficiente; a segunda, uma questão de conveniência formal e simbólica. Confundir as duas é confundir o modo como uma coisa é conhecida por um sentido particular e condicionado com aquilo que a coisa é em sua natureza inteligível.
Respostas às objeções:
Parece que sim:
Mas em contrário:
Boécio, em sua obra De Arithmetica, afirma que a unidade é o princípio (principium) de toda multidão. Ora, um número primo, por sua indivisibilidade, participa de modo mais perfeito da natureza da unidade do que um número composto, que é uma multidão de seus fatores. Aquilo que é mais principial e mais próximo da unidade não é meramente um resultado negativo de uma operação (não ser divisível), mas possui uma integridade positiva. Portanto, a primalidade significa uma perfeição intrínseca, análoga à incorruptibilidade.
Respondo dizendo que:
Deve-se afirmar que, embora a indivisibilidade seja a definição matemática formal da primalidade, para o propósito de uma investigação metafísica que busca uma analogia com a ordem do ser, a primalidade deve ser entendida em um sentido mais profundo, como um análogo da incorruptibilidade e da integridade.
Para provar isto, é necessário fazer uma distinção. A primalidade pode ser considerada de dois modos:
Segundo a sua razão matemática (ratio mathematica): Neste sentido, ela é uma propriedade relacional negativa. Um número é dito primo em relação a outros números que não podem medi-lo ou dividi-lo. Esta é a definição usada na ciência da matemática, e é o ponto de partida de nossa consideração.
Segundo a sua razão metafísica ou analógica (ratio metaphysica): Neste sentido, considera-se o que esta propriedade matemática significa na ordem do ser, da qual o número é um análogo enquanto ser de razão.
Na metafísica, aquilo que não pode ser dividido em partes constitutivas é dito simples. E aquilo que é simples, carecendo de partes nas quais possa se dissolver, é dito incorruptível. Por exemplo, a alma humana é dita incorruptível porque é uma forma espiritual simples, sem composição de matéria e forma. De modo semelhante, um número composto, como o 6, é “corruptível” em seus fatores (2 e 3), que o constituem por multiplicação. Um número primo, como o 73, não pode ser resolvido em tais partes. Ele possui uma integridade, uma simplicidade, que o torna “incorruptível” na ordem da quantidade.
Ademais, um número composto depende de seus fatores para ser o que é; sua identidade é derivada. Um número primo não possui tal dependência. Ele se sustenta por si mesmo na ordem multiplicativa, servindo como “bloco de construção” (princípio) para os outros, sem ser ele mesmo construído. Esta propriedade é analogicamente uma forma de auto-suficiência ou “perseidade” (per se, “por si”), em contraste com a dependência dos compostos, que são per aliud (“por outro”).
Portanto, para o nosso propósito, que é encontrar uma analogia de proporcionalidade (“assim como o 73 está para a ordem dos números, assim uma cor está para a ordem das qualidades”), é insuficiente permanecer na definição puramente operacional. Devemos apreender a perfeição inteligível que esta operação revela, que é a de uma entidade íntegra, incorruptível e principial em sua ordem.
Respostas às objeções:
Parece que sim:
Mas em contrário:
O Filósofo afirma no início de sua Metafísica: “Todos os homens por natureza desejam saber”. Ora, o saber (scire) é o conhecimento certo pelas causas, que é o fim da investigação filosófica. O fim da lógica é dirigir o ato da razão à verdade e ao conhecimento, enquanto o fim da retórica é persuadir uma multidão. Como o propósito de um tratado filosófico é o saber e a verdade, e não a mera persuasão, a lógica deve ser preferida à retórica.
Respondo dizendo que:
Deve-se afirmar que, para a investigação da verdade em uma questão filosófica, a lógica deve ser absolutamente preferida à retórica, embora a retórica possa servir como um instrumento útil e subordinado.
É necessário distinguir as artes segundo seus fins próprios. O fim da lógica é dirigir retamente os atos da razão — a saber, a simples apreensão, o juízo e o raciocínio — para que o intelecto possa atingir seu objeto próprio, que é a verdade (verum), sem erro. A lógica, portanto, é a arte que governa a própria inquirição da verdade.
A retórica, por outro lado, tem como fim a persuasão. Ela pressupõe uma verdade (ou algo que se apresenta como verdade) e busca os melhores meios de apresentá-la a uma audiência específica para obter seu assentimento. Para isso, ela não se dirige apenas ao intelecto, mas também às paixões e à vontade do ouvinte, usando de exemplos, entimemas e figuras de linguagem que tornam o discurso mais palatável e comovente.
Nesta matéria, como em toda investigação filosófica, o que se busca primeiramente não é convencer um oponente ou agradar uma audiência, mas sim descobrir a verdade da questão: qual é a relação mais perfeita entre a essência do número 73 e a essência simbólica de uma cor? Esta é uma tarefa puramente intelectual de investigação. Portanto, o método que governa a investigação intelectual — a lógica — deve ter a primazia. A lógica nos fornecerá a estrutura do argumento, a validade das inferências e os critérios para julgar a força da analogia proposta.
Uma vez que a conclusão mais provável tenha sido alcançada por meio do raciocínio lógico, a retórica pode então ser empregada para expor esta conclusão de modo claro, ordenado e, se necessário, elegante, a fim de auxiliar a mente do leitor a apreender a verdade encontrada. Contudo, a beleza da exposição retórica é vã e enganosa se a estrutura lógica subjacente for falha. A retórica sem a lógica como seu fundamento é mera sofística. Portanto, a lógica é preferida como o instrumento principal da descoberta, e a retórica, como instrumento secundário da comunicação.
Respostas às objeções:
Parece que sim:
Mas em contrário:
O Filósofo afirma na Metafísica que a substância de uma coisa é aquilo que ela é per se (em si mesma), e não ad aliquid (em relação a outra). Ora, a primalidade e a composição interna de 73 são propriedades que ele possui em si mesmo, independentemente de qualquer outro número. A simetria especular, contudo, é uma propriedade puramente relacional, que define o 73 por sua relação extrínseca com o 37. Portanto, esta propriedade relacional não pode ser a determinante primária de sua natureza.
Respondo dizendo que:
Deve-se afirmar que a simetria especular do número 73 não é a propriedade determinante primária para a sua cor análoga, mas sim uma perfeição consequente que confirma e enobrece a determinação feita a partir de sua estrutura essencial. É preciso fazer uma distinção fundamental entre as propriedades que constituem a essência de uma coisa e aquelas que fluem dela ou a manifestam de modo particular.
A Essência Intrínseca do Número: A essência de um número, como ente de razão, é sua quantidade e as propriedades que dela derivam per se. Para o 73, sua essência intrínseca é ser a quantidade que é, o que implica necessariamente duas propriedades constitutivas:
Sua Primalidade: Sua indivisibilidade, que é uma propriedade absoluta, não relativa.
Sua Composição Interna: Sua forma, em nosso sistema decimal, ser constituída pelos dígitos 7 e 3, ambos primos, cuja multiplicação (7 x 3 = 21) gera sua posição na ordem natural dos primos. Esta é uma harmonia interna, contida nos limites do próprio número e sua definição.
A Perfeição Extrínseca e Relacional: A simetria especular é de uma ordem diferente. Ela é uma propriedade que emerge da comparação do 73 com outro ente (o 37) dentro de um sistema ordenado. Ela depende de três fatores, dos quais apenas o primeiro é puramente natural: (i) a sequência natural dos números primos, (ii) a convenção do sistema de notação decimal, que torna “37” o espelho de “73”, e (iii) a operação racional de “espelhamento”. Portanto, é uma propriedade extrínseca e relacional.
A ordem do conhecimento metafísico exige que a determinação da natureza de uma coisa proceda do intrínseco para o extrínseco, do absoluto para o relativo. A cor análoga deve primeiro corresponder àquilo que o 73 é em si mesmo — uma unidade incorruptível composta harmonicamente. A simetria especular é uma magnífica confirmação dessa harmonia interna, uma ressonância externa da ordem que já lhe é intrínseca. Ela não é a causa da harmonia, mas um seu sinal glorioso.
Assim, a cor análoga deve ser determinada pela essência de “unidade-na-multiplicidade-harmônica” (Artigo 12), e então se verificará que tal cor também convém perfeitamente a uma natureza que possui tão bela simetria extrínseca. A simetria não determina, mas corrobora.
Respostas às objeções:
Parece que não, ou seja, que sua essência é a de uma simplicidade absoluta:
Mas em contrário:
Diz Boécio em De Institutione Arithmetica que “tudo o que foi produzido pela natureza das coisas parece ter sido formado pela razão dos números”. A razão (ratio) de um número não é apenas sua existência isolada, mas sua proporção e relação com o todo, pois é esta proporção que gera a harmonia do universo. Ora, uma essência que consiste apenas em simplicidade isolada carece de proporção e harmonia relacional. Portanto, a essência do número 73 deve ser encontrada na harmonia de suas relações, que é a manifestação de sua razão de ser no cosmos numérico.
Respondo dizendo que:
Deve-se afirmar que a essência do número 73, apreendida pelo intelecto, não é a de uma simplicidade absoluta, mas a de uma unidade de ordem (unitas ordinis), que se manifesta como harmônica, relacional e simétrica. Para esclarecer isto, é preciso fazer uma distinção.
A simplicidade absoluta, que exclui toda e qualquer composição, seja de partes quantitativas, seja de matéria e forma, seja de essência e existência, pertence unicamente a Deus, que é o Ato Puro. Toda criatura, e mesmo todo ser de razão como o número, é composto de alguma maneira. A simplicidade de um número primo não é absoluta, mas relativa: é a simplicidade de não ser composto por fatores inteiros. Esta é, sem dúvida, a condição fundamental de sua identidade, mas não esgota sua essência inteligível.
A essência de uma coisa não é apenas sua característica mais fundamental isoladamente, mas o princípio inteligível (ratio intelligibilis) que unifica todas as suas propriedades necessárias (propria) e a distingue perfeitamente de todas as outras coisas. A indivisibilidade é o que o 73 tem em comum com todos os outros números primos; é seu gênero, por assim dizer. O que o especifica e o define como este número primo é a totalidade de suas relações necessárias que brotam de sua posição única na série numérica.
Estas relações não são meros acidentes. A relação entre a multiplicação de seus dígitos (7 x 3) e sua posição ordinal (21) e a simetria especular perfeita com o número 37 (cujo ordinal 12 é o espelho de 21) são verdades matemáticas imutáveis. Elas constituem uma “forma” intrínseca, uma estrutura de proporções tão essencial ao 73 quanto a racionalidade o é para o homem. Negar estas propriedades é deixar de entender o que o número 73 é em sua identidade plena.
Portanto, a essência do 73 é uma unidade, mas não uma unidade vazia e simples. É uma unidade plena, uma unidade de ordem, onde múltiplas propriedades inteligíveis convergem em um todo perfeitamente integrado e harmônico. Sua indivisibilidade é o alicerce sobre o qual se ergue este edifício de simetria e proporção. A essência, portanto, é o edifício completo, não apenas o alicerce.
Respostas às objeções:
Parece que não:
Primeira Objeção: A razão, ao se deparar com a falha de todos os seus métodos diretos, não deve inventar uma via oblíqua, mas sim confessar sua própria limitação. A conclusão correta, após eliminar a intuição, a ciência empírica e a lógica formal, não é que a analogia é o caminho, mas sim que a questão é insolúvel e que o silêncio é a resposta mais filosófica. Tentar forçar uma resposta por um meio incerto como a analogia é um ato de presunção, não de sabedoria.
Segunda Objeção: Poderia existir uma via intermediária que não é nem a demonstração direta nem a analogia. Por exemplo, uma via de “correspondência simbólica” ou de “formalismo matemático”, onde se estabelece um sistema axiomático que mapeia as propriedades dos números a um espectro de cores. Tal sistema, por ser baseado em regras consistentes e não em comparações poéticas, seria mais rigoroso que a analogia e, portanto, uma via distinta e preferível.
Terceira Objeção: A analogia é um instrumento da retórica, útil para a persuasão, mas fraco para a demonstração da verdade. O Filósofo [Aristóteles] mesmo a coloca abaixo do silogismo demonstrativo. Se a questão pertence à filosofia, que busca a verdade certa, ela não pode ser resolvida por um método que produz apenas verossimilhança. Portanto, mesmo que outros métodos falhem, a analogia não se qualifica como a “única via restante”, pois não é uma via genuinamente filosófica para a certeza.
Mas em contrário:
Como ensina Pseudo-Dionísio Aeropagita, acerca das coisas divinas, que transcendem nosso intelecto, não podemos saber o que são em si mesmas, mas apenas o que não são e qual a relação das criaturas com elas. Ora, a predicação de uma qualidade sensível (cor) a uma quantidade inteligível (número) é, para nosso intelecto, uma predicação entre ordens de ser distintas, análoga à predicação das coisas criadas a Deus. Portanto, quando a predicação direta é impossível, a única via racional que resta é a que procede por meio da relação e da proporção, ou seja, a analogia.
Respondo dizendo que:
Deve-se afirmar que, uma vez removidos os métodos inadequados, a demonstração por analogia é a única via racional que resta para tratar desta questão. Para provar isto, é preciso recapitular a natureza do problema e as razões pelas quais os outros métodos necessariamente falham.
A questão “qual a cor do 73?” não é uma questão sobre um fato físico, mas uma questão hipotética sobre a conveniência entre uma essência matemática e uma essência simbólica. Conforme estabelecido no Artigo 1, um número não pode possuir cor propriamente. Portanto, qualquer método que pressuponha uma conexão real e direta está fadado ao fracasso.
A ciência empírica falha porque busca fatos contingentes no mundo físico (como a sinestesia), enquanto a questão é sobre uma relação necessária e metafísica.
A intuição privada e o consenso falham porque são subjetivos e acidentais, não se baseando na natureza intrínseca dos objetos em questão.
A lógica formal pura falha porque, sendo um instrumento, ela opera sobre premissas dadas; ela não pode, a partir da essência da quantidade, gerar a essência da qualidade. Há um “salto categorial” que a lógica, por si só, não pode realizar.
Eliminadas estas vias, o intelecto se depara com duas essências pertencentes a gêneros distintos: a do número 73 (uma quantidade inteligível com propriedades de primalidade, harmonia e simetria) e a das cores (qualidades sensíveis com cargas simbólicas de simplicidade, mutabilidade, nobreza, etc.). A pergunta é: como conectar racionalmente estas duas ordens?
A conexão não pode ser de identidade, mas pode ser de proporcionalidade. A mente pode comparar a relação que o número 73 tem com a ordem dos números com a relação que uma certa cor tem com a ordem das cores. Este ato de comparar uma relação com outra relação é precisamente a definição da analogia de proporcionalidade intrínseca.
Este método não afirma que “o 73 é púrpura”, mas que “assim como o 73 se comporta no reino dos números (sendo uma unidade complexa, simétrica e nobre), assim a púrpura se comporta no reino das cores (sendo uma unidade composta, equilibrada e majestosa)”. Esta é a única operação lógica que respeita a distinção entre as categorias de ser e, ao mesmo tempo, permite ao intelecto encontrar uma ordem e uma inteligibilidade que as perpassa. Portanto, não é uma via entre muitas, mas a única que se adequa à estrutura metafísica da própria questão.
Respostas às objeções:
Parece que sim, que produz certeza absoluta:
Mas em contrário:
Como diz Santo Tomás, “nada se pode predicar unìvocamente de Deus e das criaturas” (Summa Theologiae I, q. 13, a. 5), e por extensão, termos de gêneros distintos não se predicam de modo unívoco. Ora, a demonstração que produz certeza absoluta (demonstratio propter quid) se baseia na predicação unívoca de termos e em um nexo causal necessário entre o sujeito e o predicado. A demonstração por analogia, por sua própria natureza, se afasta da univocidade, comparando relações distintas. Portanto, ela não pode produzir o mesmo grau de certeza que a demonstração estrita.
Respondo dizendo que:
Deve-se afirmar que a demonstração por analogia, aplicada a esta matéria, produz uma certeza moral da mais alta probabilidade, e não uma certeza absoluta ou metafísica. Para esclarecer isto, é mister distinguir os graus de certeza segundo os diferentes modos de apreensão do intelecto.
A certeza absoluta pertence à demonstração que parte de princípios evidentes por si mesmos e conclui algo que se segue necessariamente deles, como nas matemáticas ou nas primeiras demonstrações da metafísica. Nela, o intelecto é compelido pela própria evidência da coisa a assentir sem qualquer temor de erro.
A certeza moral, por sua vez, é aquela que exclui toda dúvida razoável em uma matéria contingente ou complexa, sendo suficiente para que um homem sábio aja prudentemente. Ela se baseia não na evidência absoluta, mas na convergência de muitos sinais e argumentos que apontam para uma única conclusão com tal força que o oposto parece irracional.
Ora, a questão presente (“qual a cor do 73?”) não une dois termos do mesmo gênero, mas busca uma correspondência entre dois gêneros distintos: a quantidade discreta (número) e a qualidade sensível (cor). A conexão entre eles não é de causalidade direta, mas de semelhança de relações (similitudo proportionum). O intelecto, ao julgar esta semelhança, procede de um modo que é mais de “discernimento de conveniência” (convenientia) do que de “dedução necessária”.
Embora as propriedades do número 73 sejam conhecidas com certeza matemática, as essências simbólicas das cores, ainda que fundamentadas na metafísica do ser e da luz, são apreendidas pelo intelecto como sendo “mais ou menos adequadas” a uma realidade inteligível. Não há um nexo estritamente necessário que nos obrigue a dizer que a “unidade na multiplicidade” deva ser simbolizada pela púrpura e por nenhuma outra cor. Contudo, podemos julgar, por meio de uma análise rigorosa, que a púrpura é a mais adequada, a mais conveniente, a mais perfeita análoga, a tal ponto que as outras opções se mostram manifestamente deficientes.
Este juízo, portanto, não alcança o campo da necessidade metafísica, mas o da máxima probabilidade racional. É um argumento de “adequação” ou “conveniência” (ex convenientia), que é poderoso e pode gerar uma certeza firme, mas esta certeza é de ordem moral: a certeza de que esta é a conclusão mais racional e defensável, que um intelecto bem-disposto deve aceitar na ausência de uma demonstração mais forte.
Respostas às objeções:
Parece que sim, que a analogia deve ser de atribuição:
Mas em contrário:
Santo Tomás de Aquino ensina, comentando o Filósofo, que para haver uma analogia de atribuição (aquela que os gregos chamavam pros hen, “em relação a um”), é necessário que o termo predicado se encontre formalmente e propriamente em um dos analogados, que é o principal (analogatum princeps), e nos outros apenas por relação a este. Por exemplo, a “saúde” se encontra formalmente no animal, e se diz da medicina e do alimento apenas em relação à saúde do animal. Mas, como foi provado no Artigo 1, a cor não se encontra formalmente e propriamente em nenhum número. Logo, é impossível que a analogia entre número e cor seja uma de atribuição.
Respondo dizendo que:
Deve-se afirmar com toda certeza que o único método analógico apropriado para esta questão é a analogia de proporcionalidade, e de modo algum a de atribuição. A distinção entre estes dois modos de analogia é fundamental.
A analogia de atribuição ocorre quando um termo é predicado de várias coisas, mas de uma delas per se (propriamente) e das outras per accidens, em virtude de sua relação com a primeira. Como no exemplo da saúde, o termo “saudável” pertence propriamente apenas ao corpo vivo; à medicina, como sua causa eficiente; ao alimento, como sua causa conservadora; e à urina, como seu sinal. Todas essas atribuições secundárias dependem da existência de um sujeito primeiro que possua a qualidade da saúde de modo formal. A aplicação deste método à nossa questão falha necessariamente, pois, como já estabelecido, não existe um “número primordial” que possua a cor de modo formal e próprio, ao qual as cores dos outros números poderiam se referir. A cor, por sua essência, é uma qualidade de um sujeito corpóreo, e o número, por sua essência, é uma quantidade imaterial. Não há ponte de atribuição entre eles.
A analogia de proporcionalidade, por outro lado, não compara a relação de muitos com um, mas compara duas relações entre si. Sua forma não é “B se relaciona com A, e C se relaciona com A”, mas sim “A está para B assim como C está para D” (A:B :: C:D). Esta analogia não requer que os termos compartilhem uma mesma propriedade, mas que a relação entre os dois primeiros termos seja semelhante à relação entre os dois segundos. Por exemplo: “Assim como a visão é para o olho, a intelecção é para a alma”. A visão e a intelecção não são a mesma coisa, mas a relação de cada uma com sua respectiva potência é semelhante.
Este é precisamente o método que a nossa questão exige. Não se afirma que “o 73 tem cor”, mas sim que:
A relação que a essência matemática do número 73 tem com a ordem universal dos números é proporcionalmente semelhante à relação que a essência simbólica de uma determinada cor tem com a ordem universal das cores.
Este método é o único que:
Respeita a distinção categorial estabelecida no Artigo 1, pois não predica a cor diretamente do número.
Permite uma comparação verdadeira e inteligível entre domínios ontologicamente distintos (o inteligível e o sensível).
Fundamenta a investigação não em uma propriedade inexistente, mas em uma estrutura de relações que o intelecto pode descobrir e julgar.
Portanto, a tarefa não é encontrar um número que “seja” uma cor, mas encontrar uma cor cuja posição, simbolismo e natureza relacional dentro de seu próprio sistema (o espectro simbólico) espelhe a posição, as propriedades e a natureza relacional do número 73 dentro de seu sistema (a série dos números primos e inteiros).
Respostas às objeções:
Parece que não, ou seja, que a analogia de atribuição não falha:
Primeira Objeção: Todas as perfeições criadas preexistem de modo eminente em Deus, que é sua causa primeira. A cor, sendo uma perfeição visível, e o número, sendo uma perfeição inteligível, têm ambos Deus como sua causa e exemplar. Portanto, pode-se dizer que o termo “luminoso” ou “colorido” se predica propriamente de Deus como Causa exemplar de toda a beleza. E, por relação a esta causa única, se predica secundariamente tanto das cores físicas quanto dos números, que são “luzes” para o intelecto. Assim, a analogia de atribuição, fundada em Deus como primum analogatum, parece ser um método válido.
Segunda Objeção: O Filósofo diz que o ser se diz de muitos modos, mas sempre em referência a um primeiro: a substância. De modo semelhante, o termo “colorido” pode ser dito de muitos modos. O sujeito primário da cor é a luz, pois sem luz nada é visível em ato. Os corpos físicos são coloridos secundariamente, enquanto são iluminados. Os números, por sua vez, são conhecidos pela “luz” do intelecto. Portanto, pode-se estabelecer uma relação de atribuição onde a luz é o sujeito primário do termo “colorido”, e tanto os corpos quanto os números são ditos coloridos por sua relação com a luz (física ou intelectual).
Terceira Objeção: O sujeito que unifica a percepção da cor e a apreensão do número é a alma humana. A cor existe na alma por meio da sensação, e o número por meio da intelecção. Pode-se dizer que a “percepção” é o termo primário, que se diz propriamente da alma que conhece. E, por derivação, dizemos que a cor é “percebida” e o número é “percebido”. Nesta relação com o ato único da alma, a qualidade de um (cor) pode ser atribuída ao outro (número) por sua comum relação com o sujeito cognoscente.
Mas em contrário:
O Filósofo, na Metafísica, ensina que a analogia de atribuição (que ele chama de predicação pros hen, ou “em relação a um”) requer que os analogados secundários recebam sua definição e nome a partir de sua relação com o analogado primeiro (primum analogatum). Como quando dizemos que o remédio é “saudável” porque produz a saúde, que reside propriamente no animal. Ora, a definição de “número” não inclui em si nenhuma relação com a cor que reside num corpo físico. Logo, tal analogia é impossível.
Respondo dizendo que:
Deve-se afirmar com certeza que a analogia de atribuição (em latim, analogia attributionis ou proportionis) é um método inteiramente inadequado para resolver a presente questão.
A natureza da analogia de atribuição exige duas condições essenciais: primeiro, que exista um sujeito, chamado primum analogatum, no qual a perfeição ou forma em questão reside de modo formal e próprio (per se et proprie); segundo, que os outros sujeitos, chamados analogados secundários, recebam o mesmo nome apenas em virtude de uma relação real e direta (de causa eficiente, sinal, ou outra dependência) com esse primeiro.
O exemplo paradigmático é o da “saúde”. A saúde reside formal e propriamente apenas no corpo vivo de um animal. Dizemos, contudo, que o alimento é “saudável” porque causa e conserva a saúde; que a urina é “saudável” porque é um sinal da saúde; e que a medicina é “saudável” porque restaura a saúde. A saúde não está formalmente no alimento nem na urina, mas eles são assim chamados por sua relação extrínseca com a saúde do animal.
Ao aplicarmos este modelo à nossa questão, deparamo-nos com uma impossibilidade instransponível. Para que pudéssemos atribuir a cor a um número, precisaríamos encontrar um sujeito primário no qual a cor reside e com o qual o número 73 tivesse uma relação real de dependência. Vejamos as possibilidades:
O sujeito primário é o corpo físico: A cor azul, por exemplo, reside propriamente na superfície de uma safira. Mas que relação real de causa, efeito ou sinal existe entre a safira azul e a natureza matemática do número 73? Nenhuma. O número 73 não causa o azul da safira, nem é seu efeito, nem seu sinal.
O sujeito primário é o número: Isto já foi refutado no Artigo 1. Um número, sendo uma quantidade discreta e imaterial, é um sujeito inepto para receber a qualidade da cor, que exige um substrato físico.
Visto que é impossível encontrar um primum analogatum que ligue a natureza da cor à natureza do número por uma relação direta, a via da analogia de atribuição se mostra fechada. A predicação da cor a um número não se dá porque o número “causa” uma cor, ou é “sinal” de uma cor. A conexão, se existe, deve ser de outra natureza.
Respostas às objeções:
Parece que não:
Mas em contrário:
Como diz São Tomás no De Veritate, “quando duas coisas pertencem a gêneros diversos, a sua semelhança não pode ser afirmada segundo uma conveniência de natureza, mas somente segundo uma proporcionalidade”. Ora, como já foi estabelecido, o número (quantidade) e a cor (qualidade) pertencem a gêneros do ser diversos e irredutíveis. Logo, a única semelhança que se pode estabelecer entre eles deve ser a de proporcionalidade.
Respondo dizendo que:
Deve-se afirmar que o único método que é ao mesmo tempo rigoroso e adequado para a presente questão é o da analogia de proporcionalidade intrínseca. Para demonstrar isto, é necessário primeiro eliminar os outros modos de predicação analógica.
A predicação pode ser unívoca, equívoca ou análoga. Como o número e a cor pertencem a gêneros distintos, a predicação de um ao outro não pode ser unívoca (com o mesmo sentido). Resta a predicação análoga. A analogia, por sua vez, divide-se principalmente em duas espécies: a analogia de atribuição e a analogia de proporcionalidade.
A analogia de atribuição ocorre quando um termo se diz propriamente de uma coisa (o analogado principal) e por extensão de outras em relação a ela. Por exemplo, “são” se diz propriamente do animal, e por atribuição, do alimento (porque causa a saúde) e da urina (porque é sinal da saúde). Este método é inadequado aqui, pois a cor não se diz propriamente de nenhum número, nem um número causa cor, nem é sinal dela. Não há um analogado principal do qual a predicação dependa.
Resta a analogia de proporcionalidade, que não compara um termo a outro, mas uma relação a outra relação. A fórmula é: A está para B assim como C está para D. Esta analogia pode ser extrínseca (ou metafórica), quando a relação é imaginária ou poética (ex: “o leão é o rei dos animais”), ou pode ser intrínseca (ou própria), quando a relação expressa uma perfeição que se encontra verdadeiramente, ainda que de modos diversos, em ambos os termos. Por exemplo, diz-se que a visão está para o olho assim como o intelecto está para a alma.
No nosso caso, a questão não é poética, mas metafísica, buscando uma verdade inteligível. Portanto, a analogia metafórica deve ser rejeitada por falta de rigor. A única via que resta é a da analogia de proporcionalidade intrínseca. Este método é rigoroso porque respeita a distinção categorial entre quantidade e qualidade. Ele não afirma que o número é a cor, mas que a relação da essência do número 73 com a ordem dos números é semelhante à relação da essência simbólica de uma certa cor com a ordem das qualidades sensíveis. É um método adequado porque permite uma comparação inteligível entre realidades de naturezas diversas, fundando a conexão não em uma identidade impossível, mas em uma semelhança de proporções.
Respostas às objeções:
Parece que não:
Mas em contrário:
No Livro III de sua obra Sobre a Alma (De Anima), o Filósofo afirma que “o objeto próprio do intelecto é a quididade [a essência] da coisa” (proprium obiectum intellectus est quod quid est). Ora, julgar a perfeição de uma proporcionalidade entre duas ordens do ser requer, antes de tudo, o conhecimento da essência de cada um dos termos relacionados, para que a relação possa ser corretamente estabelecida. Portanto, o juízo fundamental sobre a verdade de tal relação pertence à potência cujo objeto próprio é a essência, a saber, o intelecto.
Respondo dizendo que:
Deve-se afirmar com certeza que o juízo sobre a perfeição ou verdade de uma proporcionalidade analógica pertence, formal e terminantemente, ao intelecto que apreende as essências dos termos.
Para demonstrar isto, é preciso considerar a natureza do ato de julgar em questão. Não se trata de um juízo sobre a existência de uma cor, que pertenceria à sensação, nem de um juízo sobre a preferência por uma cor, que pertenceria à vontade. Trata-se de um juízo sobre a verdade de uma predicação analógica. A verdade, segundo a definição clássica, é a adequação entre o intelecto e a coisa (adaequatio rei et intellectus). Portanto, a faculdade que julga a verdade é, por definição, o intelecto.
O objeto deste juízo não é a cor em si mesma, mas a relação. Especificamente, julga-se se a relação entre a essência do número 73 e suas propriedades matemáticas é proporcionalmente semelhante à relação entre a essência simbólica de uma cor e suas conotações simbólicas. Para realizar este juízo, o intelecto deve realizar três atos:
Primeiro ato (Simples Apreensão): O intelecto deve primeiro apreender as essências dos quatro termos da analogia. Deve entender o que é o número 73 em sua complexidade (primo, simétrico, relacional) e o que é a cor púrpura em sua simbologia (majestade, síntese do divino e do humano, etc.). Este é o ato de intellectus por excelência.
Segundo ato (Composição e Divisão): O intelecto, agora operando como razão (ratio), compõe as relações: “73 está para a ordem numérica” e “púrpura está para a ordem simbólica”.
Terceiro ato (Assentimento e Juízo): Finalmente, o intelecto retorna ao seu modo mais elevado para julgar a conformidade ou “adequação” entre estas duas relações. Este ato final de assentir à verdade da proporção (“sim, esta relação é verdadeiramente semelhante a esta outra”) é o juízo propriamente dito, que pertence ao intelecto como a faculdade da verdade.
Portanto, embora outras potências possam contribuir materialmente para o processo (a sensação provê a imagem da cor, a imaginação a retém), o juízo formal sobre a verdade da conexão pertence unicamente ao intelecto, pois só ele pode comparar relações inteligíveis e assentir à sua veracidade com base na natureza essencial das coisas que apreendeu.
Respostas às objeções:
Parece que não:
Mas em contrário:
Diz Pseudo-Dionísio Aeropagita em Sobre os Nomes Divinos que as coisas sensíveis podem, por uma certa semelhança, manifestar as realidades inteligíveis, e que a harmonia e a ordem das coisas criadas refletem a sabedoria de sua Causa. Ora, se a harmonia de uma cor composta pode refletir uma verdade superior, então a união simbólica de cores primárias pode manifestar uma estrutura inteligível complexa, como a que se encontra em um número.
Respondo dizendo que:
Deve-se afirmar que a união simbólica do azul e do vermelho na cor púrpura é eminentemente análoga à estrutura inteligível do número 73. A validade desta conclusão repousa sobre uma correta aplicação da analogia de proporcionalidade, que não exige uma identidade de natureza entre os termos, mas uma semelhança de relações (similitudo proportionum).
A estrutura do 73, como já estabelecido, não é a de uma simplicidade, mas a de uma unidade ordenada surgida de uma multiplicidade de princípios. Analisemos a primeira proporção:
Os seus princípios materiais, por assim dizer, são os dígitos 7 e 3, ambos números primos, ou seja, unidades indivisíveis em si mesmas.
A sua forma é a ordem posicional que os une, não de modo caótico, mas harmônico, de tal maneira que a multiplicação de seus princípios (7 x 3) revela sua identidade posicional (21º primo).
O resultado é o 73, uma nova unidade, também prima e incorruptível, que possui propriedades de simetria e nobreza que transcendem a mera soma de seus componentes.
Agora, analisemos a segunda proporção, a da cor púrpura, segundo o seu valor simbólico na tradição:
Os seus princípios são as cores azul e vermelha. O azul, por sua associação com o céu, significa universalmente a verdade transcendente, a sabedoria, a paz e a ordem divina; é um princípio de estabilidade inteligível. O vermelho, pela sua associação com o sangue e o fogo, significa a vida, a paixão, a caridade, o sacrifício e a matéria; é um princípio de dinamismo imanente.
A sua forma é a união equilibrada destes dois princípios.
O resultado é a púrpura, cor que historicamente simboliza a majestade e o sacerdócio. E isto é sumamente apropriado, pois o bom governante (o rei) deve unir a sabedoria e a lei divina (azul) com a ação e a preocupação pela vida terrena de seus súditos (vermelho). Igualmente, o sacerdote é o mediador que une o céu (azul) e a terra (vermelho). A púrpura, portanto, não é uma mera cor, mas o símbolo da harmonia hierárquica, da sabedoria que governa a vida, da união do divino com o humano.
Estabelecida a análise, a proporcionalidade se torna clara: assim como a nobreza e a unidade ordenada do 73 surgem da relação harmônica de seus princípios numéricos, assim a majestade e a dignidade simbólica da púrpura surgem da união equilibrada de seus princípios cromáticos (azul e vermelho). A analogia reside na excelência do resultado que provém de uma união ordenada de partes.
Respostas às objeções:
Parece que não:
Mas em contrário:
Tomás de Aquino ensina que a analogia de proporcionalidade própria, a única que pode fundar um conhecimento verdadeiro entre gêneros distintos do ser, se dá quando “o segundo termo se relaciona com o segundo sujeito da mesma forma que o primeiro termo se relaciona com o primeiro sujeito”. Isto é, compara-se uma relação com outra relação. Ora, a relação mais própria e verdadeira que uma coisa tem é com sua própria natureza ou essência. Portanto, a analogia deve comparar como o número 73 se comporta segundo sua essência matemática com o modo como uma cor se comporta segundo sua essência simbólica, que é o seu significado inteligível.
Respondo dizendo que:
Deve-se afirmar com certeza que os termos adequados para a analogia em questão são, de um lado, as propriedades matemáticas essenciais do número e, de outro, as propriedades simbólicas metafísicas da cor. Isto se torna claro quando se considera a natureza da própria questão.
A questão não é de ordem física, mas metafísica. Não se pergunta qual fenômeno físico corresponde a outro, mas sim qual realidade sensível, em sua capacidade de significar, corresponde a uma realidade inteligível. Para isso, a analogia deve operar no mesmo plano de inteligibilidade.
Do lado do número: A essência de um número não é meramente sua posição na contagem. Sua identidade plena, especialmente para um número primo, reside em suas propriedades intrínsecas e relacionais que o definem e o distinguem de todos os outros. A primalidade, a indivisibilidade, as relações internas de seus componentes e suas simetrias não são acidentes, mas a manifestação de sua forma inteligível. Ignorá-las seria tratar o número como matéria informe, e não como um ente de razão com uma natureza definida. A essência do 73 é precisamente ser este primo, com estas propriedades que o tornam único.
Do lado da cor: A cor, enquanto objeto de uma investigação metafísica, não é considerada em seu ser puramente material (o pigmento ou a onda de luz), mas em sua ratio formalis como sinal sensível de uma realidade inteligível. Na filosofia tomista, o universo é um cosmos ordenado onde o sensível manifesta e aponta para o inteligível. A capacidade da cor de simbolizar não é uma convenção meramente humana e arbitrária, mas se funda na natureza das coisas (fundamentum in re). O ouro simboliza a incorruptibilidade porque ele é incorruptível; o azul simboliza o celeste porque o céu é azul. Este simbolismo natural, apreendido pelo intelecto, é a “essência formal” da cor no contexto de uma analogia com o mundo inteligível.
Portanto, a analogia de proporcionalidade se estabelece corretamente da seguinte forma: “Assim como as propriedades essenciais (primalidade, simetria, harmonia) estão para a identidade do número 73 na ordem inteligível, assim as propriedades simbólicas (pureza, majestade, união) estão para a identidade de uma cor na ordem do sensível que significa o inteligível”. Qualquer outra escolha de termos resultaria num erro categorial.
Respostas às objeções:
Parece que não:
Mas em contrário:
O Apóstolo diz na Epístola aos Romanos (1, 20): “Pois as suas perfeições invisíveis, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, desde a criação do mundo, por meio das suas obras”. Ora, as cores são proeminentes entre as obras da criação visível. Portanto, as cores, como as demais criaturas, manifestam à inteligência as perfeições invisíveis de Deus, o que é o fundamento de todo simbolismo verdadeiro.
Respondo dizendo que:
Deve-se afirmar que o sistema simbólico das cores, para que sirva como termo válido em uma analogia de proporcionalidade metafísica, deve necessariamente se basear na tradição que as interpreta como signos de realidades inteligíveis. Isto se demonstra por três razões.
Primeiro, pela natureza do universo como uma ordem criada. O universo, segundo a sã filosofia, não é um agregado caótico de fatos brutos, mas um cosmos ordenado, procedente do Intelecto Divino, que é a Causa Primeira de tudo o que existe. Cada criatura, então, não só existe, mas também significa, pois é um efeito que reflete, à sua maneira limitada, a perfeição de sua Causa. As criaturas são vestígios (vestigia Dei) ou imagens de Deus. A cor, sendo uma perfeição real no mundo visível, participa desta condição de signo. Sua beleza e distinção não são acidentes mudos, mas uma linguagem pela qual a sabedoria do Criador se manifesta.
Segundo, pela natureza do conhecimento humano. O conhecimento humano, como ensina o Filósofo, começa nos sentidos para chegar ao intelecto. Os objetos sensíveis, como as cores, são o ponto de partida a partir do qual o intelecto abstrai as formas inteligíveis e se eleva ao conhecimento das realidades imateriais. Assim, há uma “conaturalidade” entre a ordem sensível e a inteligível. O azul do céu, por sua imensidão e aparente constância, serve como um símbolo natural para a inteligência contemplar a verdade eterna ou a fidelidade divina. A tradição metafísica não inventa estes significados arbitrariamente, mas os descobre e articula, lendo a ordem inteligível inscrita na ordem sensível.
Terceiro, pela distinção entre símbolo e signo convencional. Um signo puramente convencional (como a palavra “cão”) significa por imposição humana. Um símbolo, por outro lado, possui uma conexão intrínseca e natural com aquilo que significa. A tradição metafísica e teológica, ao tratar das cores, busca fundamentar seu simbolismo nesta conexão natural, refinando-a e elevando-a. Ela não é um mero conjunto de convenções, mas o resultado de um esforço racional e contemplativo para decifrar o significado inerente à criação.
Portanto, rejeitar este sistema em favor de um pretenso fisicalismo ou de um relativismo cultural seria rejeitar a própria inteligibilidade do cosmos e a capacidade da razão humana de ascender do visível ao invisível. O método correto é, pois, adotar o sistema simbólico que reconhece esta dimensão metafísica da realidade.
Respostas às objeções:
Parece que sim, que se deve considerar apenas a primalidade:
Mas em contrário:
Boécio, em sua obra De institutione arithmetica, afirma que o número não é uma mera quantidade agregada, mas uma forma e uma “harmonia imanente”. E o Filósofo, na Metafísica, ensina que para conhecer perfeitamente uma coisa, não basta conhecer seu gênero, mas também suas diferenças específicas e propriedades que dela decorrem. Ora, a estrutura interna e relacional do 73 constitui a sua diferença específica e a sua harmonia imanente, que o distingue de todos os outros números primos. Portanto, estas propriedades devem ser consideradas.
Respondo dizendo que:
Deve-se afirmar que para uma determinação rigorosa e adequada da cor análoga ao número 73, é necessário considerar não apenas sua propriedade universal de ser primo, mas também, e principalmente, sua estrutura interna e suas relações matemáticas específicas.
Para justificar esta conclusão, é preciso distinguir entre a essência universal e o modo próprio de ser desta essência em um indivíduo particular. A primalidade é a essência universal que coloca o 73 na classe dos números primos. Se considerássemos apenas isto, a cor do 73 seria a mesma de todos os outros números primos, o que contraria o princípio de que cada número, como ente de razão, possui sua própria identidade inteligível.
A filosofia tomista ensina que, embora a forma seja o que dá o ser (quod dat esse), a perfeição do conhecimento de um ente exige a apreensão de suas propriedades per se (propria). Estas são propriedades que, embora não sejam a essência mesma, dela decorrem necessariamente e a manifestam. Por exemplo, a capacidade de rir não é a essência do homem, mas decorre necessariamente de sua essência de ser um animal racional.
No caso do 73, as suas propriedades relacionais – a saber, ser o 21º primo sendo 7x3=21; ter como espelho o 37, que é o 12º primo, sendo 12 o espelho de 21 – não são acidentes meramente casuais ou fruto de uma convenção de notação. Pelo contrário, a notação decimal é o instrumento pelo qual o intelecto descobre uma harmonia matemática objetiva e uma simetria intrínseca na ordem dos números. Esta estrutura revela o modo particular e ordenado como a primalidade se realiza neste número específico.
Portanto, ignorar esta estrutura seria análogo a descrever a estátua de Davi apenas como “mármore”, ignorando a forma, a proporção e a arte que constituem a sua beleza e identidade. A verdadeira natureza do 73, em sua individualidade inteligível, é a de ser um primo cuja identidade se manifesta numa teia de relações simétricas e harmônicas. É esta totalidade – essência universal mais modo próprio e relacional – que deve ser o termo da nossa analogia.
Respostas às objeções:
Parece que sim, que deve ser entendida como mera indivisibilidade:
Mas em contrário:
O Filósofo [Aristóteles], na Metafísica, ensina que “o uno é o princípio e a medida de todos os números”. Ora, um número primo, por não ser mensurável por nenhum outro número senão pela unidade e por si mesmo, participa de modo mais excelente e direto da natureza do “uno” do que um número composto, que é uma multidão de medidas. Como o uno é um transcendental e está ligado ao ser e à incorruptibilidade (pois o que é uno e simples não pode se decompor), a primalidade deve significar algo mais do que a mera indivisibilidade funcional.
Respondo dizendo que:
É necessário fazer uma distinção fundamental entre a razão de ser de uma coisa segundo uma ciência particular (ratio particularis) e a sua razão de ser segundo a metafísica (ratio universalis), que considera o ente enquanto ente.
Segundo a ciência particular da Aritmética, cujo objeto formal é a quantidade discreta enquanto mensurável, a primalidade do número 73 é, de fato e adequadamente, definida por sua indivisibilidade por outros fatores. Esta é a sua ratio mathematica. Neste plano, não há mais nada a dizer.
Contudo, este tratado não é de Aritmética, mas de Metafísica aplicada, pois busca uma analogia entre ordens distintas do ser: a ordem inteligível da quantidade e a ordem sensível da qualidade. Para que tal analogia seja verdadeira e não apenas uma ficção poética, ela deve se fundar naquilo que as propriedades de cada ordem significam do ponto de vista do ser. A metafísica, portanto, questiona: o que a indivisibilidade na ordem da quantidade significa analogamente na ordem do ser?
Nesta perspectiva, a indivisibilidade é o sinal de uma perfeição. Aquilo que é composto de partes pode ser corrompido pela dissolução dessas partes. Aquilo que é simples ou indivisível, carecendo de partes nas quais possa ser resolvido, é, por analogia, incorruptível. Assim, a indivisibilidade matemática do 73 é o análogo, na ordem da quantidade, da incorruptibilidade na ordem das substâncias.
Ademais, um número composto, como o 12, tem sua identidade quantitativa dependente de outros números (2 x 6, 3 x 4). Sua inteligibilidade repousa em outros. Um número primo, como o 73, não repousa em outros fatores. Sua identidade é primária e fundamental, não derivada. Esta é a sua auto-suficiência, não uma auto-suficiência absoluta (que pertence somente a Deus), mas uma auto-suficiência analógica e própria à sua ordem (secundum quid): a de ser um princípio fundamental, e não algo principiado por outros.
Portanto, para o propósito de encontrar uma cor análoga, que é uma investigação metafísica sobre o significado, é não só lícito como necessário transcender a definição puramente funcional e entender a primalidade do 73 como o signo de uma perfeição ontológica análoga: a da incorruptibilidade e da auto-suficiência em seu gênero.
Respostas às objeções:
Parece que não:
Mas em contrário:
Diz Boécio em seu tratado De institutione arithmetica: “Tudo o que é, é ordenado, e a ordem das coisas é encontrada na proporção que as partes mantêm com o todo e entre si.” Ora, as propriedades internas e relacionais de um número manifestam precisamente esta proporção ordenada de suas partes. Ignorá-las seria ignorar a própria ordem que constitui a beleza e a identidade do número. Portanto, estas propriedades devem ser consideradas essenciais.
Respondo dizendo que:
Deve-se afirmar que a estrutura interna e relacional do número 73 é absolutamente essencial para a determinação de sua cor análoga. O erro das objeções reside em uma concepção redutora da essência de um ente.
O método que estabelecemos neste tratado é o da analogia de proporcionalidade: “Assim como A está para a ordem B, assim C está para a ordem D.” No nosso caso: “Assim como o número 73 está para a ordem dos números, assim uma certa cor está para a ordem das cores.” A verdade e a precisão desta analogia dependem da correta e completa apreensão do primeiro termo: o número 73.
A essência de um ente não é apenas sua definição mais genérica, mas o conjunto de todos os seus princípios formais que o fazem ser este ente e não outro. A primalidade é, de fato, uma propriedade essencial do 73, mas ela o define apenas em seu gênero comum com todos os outros números primos. Ela nos diz que o 73 pertence à classe dos números “incorruptíveis”, mas não nos diz nada sobre o que o distingue do 5, do 11 ou do 101. Se considerássemos apenas a primalidade, todos os números primos teriam a mesma cor, o que contradiz a intuição de que a identidade única de cada número deve corresponder a uma cor única (conforme o Artigo 4).
A identidade própria (haecceitas) do número 73 é manifestada precisamente por esta harmonia única: ser o 21º primo, sendo que 21 é o produto de seus dígitos constituintes, 7 e 3. Esta não é uma mera curiosidade, mas uma perfeição intrínseca, uma manifestação de ordem e simetria que o especifica dentro do gênero “número primo”. É seu princípio formal distintivo. Assim como a definição de homem não é apenas “animal” (gênero), mas “animal racional” (gênero + diferença específica), a identidade do 73 para nosso propósito não é apenas “primo”, mas “o primo de estrutura harmônica e relacional”.
Portanto, ignorar estas propriedades seria como tentar pintar o retrato de um homem conhecendo apenas o fato de que ele é um homem, sem considerar as feições próprias que o distinguem de todos os outros. A cor que buscamos não é a cor do “ser primo”, mas a cor do 73. Logo, as propriedades que o especificam são essenciais para a analogia.
Respostas às objeções:
Parece que sim:
Mas em contrário:
Boécio, em sua obra De institutione arithmetica, define o número por sua natureza quantitativa, como uma “coleção de unidades”. As propriedades que se seguem per se a esta natureza, como ser par ou ímpar, primo ou composto, são as que constituem sua essência matemática. As propriedades que dependem de um sistema de notação particular, como o sistema decimal que nos permite “espelhar” os algarismos, são acidentais à essência do número como pura quantidade. Portanto, a simetria especular, por depender de um sistema de notação, é acidental e não pode ser uma propriedade determinante.
Respondo dizendo que:
Deve-se fazer uma distinção entre as propriedades que pertencem a uma coisa per se (por si mesma) e aquelas que lhe pertencem per accidens (acidentalmente ou em relação a outra coisa).
A essência do número 73, enquanto ente de razão com fundamento na realidade, reside em sua ser uma quantidade discreta específica. Desta essência, segue-se per se e necessariamente a propriedade de ser um número primo, pois sua quantia não pode ser medida por nenhuma outra senão pela unidade e por si mesma. Esta propriedade é absoluta e independe de qualquer sistema de notação ou linguagem humana. Seja em notação romana (LXXIII), binária (1001001) ou hebraica, a quantidade setenta e três permanece prima.
A propriedade da simetria especular, contudo, não pertence ao número 73 per se, mas em relação a três fatores externos a sua essência quantitativa:
Ao sistema de notação decimal: A existência dos algarismos “7” e “3” e a possibilidade de seu “espelhamento” em “3” e “7” é uma convenção deste sistema.
À ordem sequencial dos números primos: Que o 73 ocupe a 21ª posição e o 37 a 12ª é uma verdade posicional, não uma propriedade intrínseca da quantidade em si.
À mesma notação decimal aplicada aos ordinais: A relação especular entre “21” e “12” novamente depende da notação.
Portanto, a simetria especular é um acidente de relação (accidens ad aliquid), uma coincidência harmonicamente ordenada, mas que não brota da essência do número enquanto tal. Assim sendo, ela não pode ser a propriedade determinante primária da analogia, pois a analogia deve se fundar no que é essencial.
Contudo, isto não significa que tal propriedade seja inútil. Na metafísica tomista, mesmo os acidentes podem manifestar a natureza da substância. Uma vez estabelecido o fundamento da analogia na propriedade essencial (a primalidade, entendida como incorruptibilidade e nobreza), a propriedade acidental da simetria pode servir de modo secundário e confirmatório. Ela age como um sinal de conveniência que nos ajuda a julgar entre várias cores possíveis. Se a primalidade nos aponta para cores que simbolizam a incorruptibilidade, a simetria relacional nos apontará para aquela que, dentre estas, melhor simboliza também a harmonia, a relação e a ordem complexa.
Logo, a simetria especular não é a causa determinante fundamental da analogia, mas é um critério secundário e decisivo para aperfeiçoá-la.
Respostas às objeções:
Parece que a essência do 73 é a de uma simplicidade absoluta:
Mas em contrário:
Boécio, em sua De Institutione Arithmetica, ensina que a ciência dos números não trata de meras unidades isoladas, mas das relações e proporções que constituem a harmonia do cosmos. A identidade de cada número se revela em sua posição e relação com os outros. Como diz ele, “Tudo o que é constituído pela natureza primordial das coisas parece ser formado pela razão dos números”. Esta “razão” implica relação e ordem. Portanto, a essência de um número não pode ser uma simples mônada, mas deve incluir a teia de relações que o define em seu lugar na ordem universal dos números.
Respondo dizendo que:
É preciso afirmar que a essência do número 73 é a de uma unidade harmônica, relacional e simétrica, e não a de uma simplicidade absoluta. Para esclarecer esta questão, devemos fazer uma distinção crucial entre uma unidade de simplicidade absoluta e uma unidade de ordem ou composição.
Uma unidade de simplicidade absoluta é aquela cuja essência carece de toda e qualquer composição de partes, seja de matéria e forma, seja de substância e acidente, seja de gênero e diferença. Tal simplicidade se predica propriamente apenas de Deus.
Uma unidade de ordem, por outro lado, é a unidade de um todo constituído por múltiplas partes ou princípios, ordenados entre si para formar um único ente. A unidade de uma casa, de um animal ou de uma melodia é deste tipo.
A “simplicidade” que se atribui a um número primo não é uma simplicidade absoluta de essência, mas uma simplicidade por indivisibilidade segundo o modo da quantidade. Ou seja, ele não pode ser resolvido em fatores inteiros menores. Esta é a sua “simplicidade material”, por assim dizer.
Contudo, a sua essência formal e inteligível — aquilo que faz o número 73 ser este número específico e não o 71 ou o 79 (que também são primos) — não é exaurida por esta mera indivisibilidade. A sua quiddidade ou “o que ele é” em sua identidade plena é constituída pela constelação única de propriedades relacionais que o definem. A essência do 73 é ser aquele primo que é o 21º, cuja posição (21) é o produto de seus dígitos (7 e 3), cujo reverso (37) é o 12º primo, sendo 12 o reverso de 21.
Estas não são meras curiosidades acidentais, mas as relações inteligíveis que constituem a sua forma única. Negar que estas relações pertençam à sua essência seria o mesmo que dizer que a essência de Sócrates é apenas “ser um animal racional”, sem a matéria designada que o individualiza. No mundo inteligível dos números, são estas relações que individualizam e especificam. Portanto, a essência do 73 é a de uma unidade de ordem: a unidade de um sistema perfeito e harmonioso de relações, cuja beleza reside precisamente na forma como a multiplicidade de suas propriedades converge para uma única identidade.
Respostas às objeções:
Parece que sim:
Mas em contrário:
O Filósofo, na Metafísica, ensina que os objetos da matemática existem por abstração e são imutáveis, enquanto as coisas sujeitas à geração e corrupção são mutáveis por natureza. Ora, a analogia de proporcionalidade requer uma semelhança de proporções. Mas não há semelhança de proporção entre o que é por essência necessário e imutável e o que é, por essência, um símbolo da mutabilidade e da corrupção. Portanto, tal analogia é impossível.
Respondo dizendo que:
Deve-se afirmar com toda certeza que uma cor que representa a mutabilidade, a contingência e a instabilidade não pode, de modo algum, ser análoga à essência do número 73. A razão para isso reside na falha radical da proporcionalidade, que é o fundamento do método analógico aqui empregado.
A analogia de proporcionalidade se estabelece assim: Assim como A se relaciona com B, C se relaciona com D. Em nossa questão: Assim como a essência do número 73 se relaciona com a ordem dos entes matemáticos, a essência simbólica da cor X se relaciona com a ordem das qualidades sensíveis. Para que a analogia seja válida, a natureza da primeira relação deve ser semelhante à natureza da segunda.
A essência do número 73, como a de toda verdade matemática, é caracterizada pela necessidade, a imutabilidade e a eternidade. É necessário que 73 seja o 21º número primo; não poderia ser de outra forma. É imutável, pois esta verdade não se altera, não se corrompe, não cresce nem diminui. É eterna no sentido de que está fora do fluxo do tempo e da mudança. A relação do 73 com a ordem matemática é, portanto, uma relação de permanência e ato puro (em sua ordem inteligível).
Por outro lado, uma cor cuja essência simbólica é a mutabilidade, a contingência e a instabilidade — como o verde, que na simbologia medieval denotava a sorte, o acaso e a transitoriedade da vida terrena — estabelece uma relação de natureza oposta. A sua relação com a ordem das coisas é precisamente a de representar o devir, a potencialidade e a transitoriedade. Ela significa aquilo que pode ser ou não ser, aquilo que passa da potência ao ato e, eventualmente, do ato à privação (como a planta que cresce e morre).
Portanto, tentar estabelecer uma analogia aqui é afirmar que a relação de necessidade e permanência é proporcional à relação de contingência e transitoriedade. Isto não é uma analogia, mas uma contradição. É afirmar que o ser é como o devir, que o ato é como a potência, que o necessário é como o contingente. Tal proposição viola o princípio de não-contradição no nível das relações. Conclui-se, pois, que uma cor que representa a mutabilidade é metafisicamente inapta para ser análoga a uma verdade matemática.
Respostas às objeções:
Parece que sim:
Mas em contrário:
O Filósofo ensina, na Metafísica, que os objetos da matemática são imutáveis e eternos, abstraídos do movimento e da matéria, enquanto as coisas do mundo natural são sujeitas à geração e à corrupção. Ora, o verde é a cor que mais propriamente significa o mundo da natureza contingente, do crescimento e da decadência. Portanto, uma cor que significa o mutável e o corruptível não pode ser análoga a um ente que é por natureza imutável e incorruptível.
Respondo dizendo que:
Deve-se afirmar com certeza que o verde não pode ser a cor análoga ao número 73. A razão para isto se encontra na necessária conveniência que deve existir entre os termos de uma analogia de proporcionalidade para que ela seja verdadeira. O método estabelecido nos artigos anteriores concluiu que a cor de um número se determina pela proporção: “Assim como o número está para a ordem dos entes matemáticos, assim a cor está para a ordem dos símbolos sensíveis”. Esta proporção exige uma semelhança de relações, que por sua vez se baseia em uma semelhança entre as naturezas dos termos.
A natureza ou essência do número 73, como foi demonstrado, não é meramente a de “existir”, mas de existir como um número primo. A primalidade confere ao número três características essenciais:
Imutabilidade: A verdade de que “73 é primo” é uma verdade eterna e necessária. Não é algo que 73 se tornou ou que possa deixar de ser.
Incorruptibilidade: O 73 não pode ser decomposto ou corrompido em fatores inteiros menores. Ele resiste à divisão, mantendo sua integridade.
Necessidade: Suas propriedades derivam de sua essência de modo necessário, não dependendo de nenhuma condição externa ou contingente.
Por outro lado, a essência simbólica do verde, especialmente no pensamento medieval e teológico, é definida por propriedades diametralmente opostas:
Mutabilidade: O verde é a cor da primavera e do verão, mas que desaparece no outono e no inverno. É a cor do ciclo, da mudança. Os próprios pigmentos verdes da época eram quimicamente instáveis, reforçando este simbolismo.
Corruptibilidade: O verde é a cor da vida vegetal, que germina, cresce, mas inevitavelmente murcha, morre e se decompõe. Significa o ser que está em trânsito da geração para a corrupção.
Contingência: A vida de uma planta é contingente; depende de sol, água e solo, e pode perecer a qualquer momento. Não é um ser necessário.
Portanto, postular que o 73 seria verde é criar uma analogia monstruosa, uma disproportio. Seria afirmar que o incorruptível é análogo ao corruptível, que o imutável é análogo ao mutável, e que o necessário é análogo ao contingente. A relação de oposição entre as naturezas essenciais dos termos invalida completamente a proporção.
Respostas às objeções:
Parece que sim:
Mas em contrário:
O Filósofo afirma em sua Metafísica que “a unidade não se diz de modo unívoco”, e que a unidade de um todo composto de partes é de um gênero distinto da unidade do que é simples e indivisível. Ora, como será demonstrado, a notável perfeição do número 73 reside precisamente na harmonia de suas partes com o todo. Portanto, sua unidade não é a da simplicidade, mas a da composição ordenada, não podendo ser analogada por um símbolo de simplicidade absoluta.
Respondo dizendo que:
Deve-se afirmar que uma cor que representa a simplicidade absoluta e a perfeição unificada, como o azul puro ou o dourado, não é uma analogia adequada para o número 73. A razão para isso reside na distinção fundamental entre dois tipos de unidade: a unidade de simplicidade (unitas simplicitatis) e a unidade de ordem ou composição (unitas ordinis).
A unidade de simplicidade pertence àquilo que carece de partes. Na ordem do ser real, somente Deus é absolutamente simples. Na ordem simbólica, cores primárias como o azul (representando a verdade una e celeste) ou materiais puros como o ouro (representando a incorruptibilidade) são análogos adequados para esta simplicidade. Se um número fosse análogo a este tipo de unidade, seria um que não possui nenhuma estrutura interna notável, talvez um dos primeiros primos como 2 ou 3, que funcionam como princípios geradores.
A unidade de ordem, por outro lado, é a unidade de um todo composto de partes distintas, cuja perfeição não consiste na ausência de partes, mas na harmonia, proporção e ordenação perfeita dessas partes entre si e em relação ao todo. A perfeição de um exército não é ter um só soldado, mas a ordem perfeita entre muitos. A beleza de uma melodia não é ter uma só nota, mas a harmonia entre várias.
A análise da essência matemática do 73, como estabelecido nos artigos anteriores, revela que ele é um exemplo paradigmático de unidade de ordem. Sua nobreza não deriva meramente de sua primalidade (indivisibilidade), mas da constelação de propriedades que tecem uma teia de relações perfeitas:
É o 21º primo, e seus dígitos, 7 e 3, multiplicados dão 21.
Seu espelho, 37, é o 12º primo, e 12 é o espelho de 21.
Seu binário, 1001001, é um palíndromo.
Estas não são propriedades de uma entidade simples, mas de uma entidade cuja identidade é constituída por uma complexa e bela arquitetura interna. É uma unidade cuja perfeição é a sua própria harmonia relacional.
Portanto, a analogia correta não pode ser com uma cor que simboliza a simplicidade, mas com uma que simboliza a unidade nascida da composição harmoniosa. A simplicidade do azul ou do ouro falha em capturar a riqueza estrutural que torna o 73 único.
Respostas às objeções:
Parece que sim:
Mas em contrário:
Uma definição, para ser correta, deve abarcar toda a essência do definido, e não apenas uma de suas partes ou propriedades. O Filósofo ensina que o que distingue uma coisa é sua diferença específica, que informa toda a sua natureza. Ora, a essência do número 73 não é apenas a sua primalidade genérica, mas a sua primalidade informada por uma estrutura interna e relacional única. Portanto, uma cor análoga que signifique apenas a primalidade genérica, ignorando a diferença específica do 73, seria uma analogia imprópria e inadequada.
Respondo dizendo que:
Deve-se afirmar que, embora o azul e o dourado sejam análogos a certas propriedades do número 73, não são, contudo, a cor que corresponde à sua essência completa e específica. Para demonstrá-lo, é mister fazer uma distinção entre uma analogia adequada e uma analogia inadequada ou incompleta.
Uma analogia é adequada quando a relação (ratio) encontrada no primeiro termo corresponde com perfeição à relação encontrada no segundo. No presente caso, o primeiro termo é o número 73 em sua essência total. Como foi estabelecido nos artigos precedentes, a essência do 73 não se esgota em sua primalidade. Sua identidade específica é a de uma unidade harmônica e relacional. É um ser cuja unidade (ser um único número) é manifestada através de uma multiplicidade de relações perfeitamente ordenadas:
Sua composição a partir dos dígitos primos 7 e 3.
A relação de seus componentes com sua posição ordinal na série dos primos (7 x 3 = 21).
Sua simetria especular com o número 37, cujo ordinal (12) é o espelho de sua própria posição (21).
O 73 é, portanto, um exemplo sublime do princípio de unitas multiplex, ou seja, uma unidade que não é vazia nem meramente simples, mas rica de uma complexidade interna perfeitamente integrada.
Ora, as cores azul puro e dourado, em sua significação simbólica tradicional, representam a perfeição na simplicidade absoluta. O azul representa a verdade una e indivisa. O dourado representa a divindade, o Bem em si, que é o Ser mais simples de todos. Ambas as cores significam uma unidade que exclui a composição.
Portanto, ao propor o azul ou o dourado como cor do 73, estabelece-se uma analogia incompleta. Compara-se a incorruptibilidade (um atributo) do 73 com a incorruptibilidade do ouro, ou a verdade (outro atributo) do 73 com a verdade do azul, mas ignora-se a propriedade essencial que o distingue de outros números primos: sua natureza de unidade complexa e relacional. A analogia falha porque compara a totalidade da essência do 73 com um mero atributo significado pela cor. Seria como descrever o homem apenas como “bípede”, ignorando sua racionalidade.
Conclui-se, pois, que o azul puro e o dourado são cores inadequadas, pois sua simplicidade simbólica não pode dar conta da rica e harmoniosa complexidade que constitui a identidade própria do número 73.
Respostas às objeções:
Parece que não:
Mas em contrário:
O Filósofo [Aristóteles] ensina na Metafísica que o todo é mais do que a mera soma de suas partes; ele é uma unidade ordenada segundo uma forma. Ora, a identidade do número 73 não se esgota em sua simples indivisibilidade, mas se manifesta plenamente na ordem harmoniosa de suas partes e relações. Portanto, sua cor análoga deve significar não uma mera simplicidade, mas uma unidade ordenada e complexa.
Respondo dizendo que:
Deve-se afirmar que a cor análoga ao número 73 deve ser necessariamente uma cor composta. Para a reta compreensão disto, é preciso distinguir entre a simplicidade absoluta e a simplicidade relativa.
A simplicidade absoluta, que é ausência total de qualquer composição, pertence somente a Deus. Na ordem criada e na ordem da razão, a simplicidade é sempre relativa a um determinado gênero. A primalidade do número 73 é uma simplicidade relativa ao gênero da quantidade: significa que ele é indivisível em partes quantitativas menores por meio da multiplicação. Contudo, esta simplicidade não esgota a sua essência inteligível. A essência completa de uma coisa não é apenas sua propriedade mais fundamental, mas o conjunto ordenado de todas as suas propriedades essenciais.
A essência inteligível do número 73, como demonstrado nos artigos precedentes, não é a de uma unidade vazia, mas a de uma unitas multiplex ordinata – uma unidade múltipla e ordenada. Sua identidade é constituída por uma rede de relações intrínsecas e extrínsecas de notável harmonia:
Sua unidade é a de ser um único número primo.
Sua multiplicidade reside em ser composto pelos dígitos 7 e 3.
Sua ordem se manifesta na relação perfeita entre essa multiplicidade e sua identidade, pois o produto de seus dígitos (7 x 3) determina sua posição (21) na série dos primos. Ademais, sua simetria especular com o 37 confirma essa ordem relacional.
Estabelecido isso, o princípio da analogia de proporcionalidade exige que a estrutura do análogo corresponda à estrutura do analogado. Se a essência do 73 é uma unidade que surge de uma harmonia de múltiplos princípios, sua cor análoga não pode ser uma cor simples, que por definição simboliza um princípio único e irredutível. Uma cor simples, como o azul, representaria apenas a sua primalidade isolada, ignorando a rica estrutura que lhe confere sua identidade única.
Portanto, a cor análoga deve ser uma cor composta. As cores compostas, como a púrpura ou o violeta, significam simbolicamente a união de dois princípios distintos (vermelho e azul) para formar uma nova realidade unificada, que é mais do que a mera justaposição de seus componentes. A púrpura não é “vermelho e azul”; ela é uma nova forma de cor que nasce da fusão ordenada dos dois. Assim, a natureza da cor composta espelha perfeitamente a natureza do número 73: uma unidade nobre e indivisível cuja identidade é tecida a partir de uma multiplicidade perfeitamente ordenada.
Respostas às objeções:
Parece que não:
Mas em contrário:
A conveniência da analogia exige que a estrutura do análogo (a cor) corresponda à estrutura do sujeito (o número). Ora, foi demonstrado em artigos anteriores que a essência inteligível do 73 não é a de uma simplicidade absoluta, mas a de uma unidade complexa e harmoniosa (unitas multiplex). Portanto, aquilo que é composto em sua ordem inteligível deve ser significado por aquilo que é composto em sua ordem sensível.
Respondo dizendo que:
Deve-se afirmar, com a máxima probabilidade que este método permite, que a púrpura ou o violeta são de fato os candidatos mais apropriados para serem a cor do 73. A razão para isso reside na perfeita correspondência entre a estrutura simbólica desta cor e a estrutura matemática do número.
Como estabelecido, a identidade do 73 não se esgota em sua primalidade, mas reside em um sistema de relações:
É uma unidade indivisível (primo).
Esta unidade é composta inteligivelmente por dois princípios primos distintos (os dígitos 7 e 3).
Estes princípios se relacionam de modo harmônico e ativo para definir a identidade do todo (7 x 3 = 21, sua posição).
Possui uma simetria externa que o liga a outro em uma ordem perfeita (o espelhamento com 37).
Uma cor análoga deve ser capaz de significar simultaneamente todas estas facetas.
As cores simples falham, pois só podem significar um aspecto. O azul ou o dourado podem significar a primalidade e a incorruptibilidade (a), mas não a composição interna e a harmonia relacional (b, c, d).
As outras cores compostas são inadequadas. O verde, como já se viu, simboliza uma geração contingente e temporal, própria da vida biológica, o que é contrário à necessidade eterna das verdades matemáticas. O laranja une a ação (vermelho) à perfeição ou glória (dourado), mas esta não é a relação precisa que encontramos no 73.
A púrpura-violeta, no entanto, é a união do azul e do vermelho.
O azul, na tradição simbólica, representa a verdade imutável, a sabedoria divina, a lei e a ordem celeste. Ele corresponde perfeitamente à primalidade do 73 – sua natureza eterna e incorruptível como verdade matemática.
O vermelho representa o princípio da vida, do sangue, da paixão, da ação e da substância terrena. Ele corresponde perfeitamente ao papel ativo e “gerador” dos componentes (7 e 3), que, através de sua relação, dão substância e determinam a identidade única do todo.
Portanto, a púrpura não é uma mera mistura, mas uma síntese simbólica. Ela significa uma verdade imutável e ordenada (azul) que é constituída e manifestada através de um princípio ativo e substancial (vermelho). Esta é precisamente a estrutura do 73: uma verdade prima (azul) cuja identidade é tecida pela relação interna de seus componentes (vermelho). Esta cor, portanto, simboliza a majestade, que é a união da sabedoria (azul) e do poder (vermelho), e o mistério, que é a manifestação do divino (azul) no terrestre (vermelho). Nenhuma outra cor possui uma estrutura simbólica tão complexa e, ainda assim, tão perfeitamente análoga à do número 73.
Respostas às objeções:
Parece que não:
Mas em contrário:
Diz o Pseudo-Dionísio Areopagita em Sobre os Nomes Divinos que “não é possível ao nosso espírito elevar-se a essa contemplação imaterial das hierarquias celestes se não se serve da guia material que lhe é congênere”. Isto é, compreendemos o inteligível através de símbolos tirados do sensível, cuja aptidão reside na sua capacidade de refletir a estrutura do inteligível. Ora, a estrutura do número 73 não é uma simplicidade absoluta, mas uma unidade ordenada que surge de uma multiplicidade harmônica. Portanto, o símbolo sensível mais apto para representá-lo não será um símbolo de pura simplicidade, mas um que signifique a união ordenada de múltiplos princípios, como é a cor púrpura.
Respondo dizendo que:
Deve-se afirmar que a união simbólica do azul e do vermelho na cor púrpura é a mais perfeita análoga à estrutura matemática do número 73. A demonstração procede pela análise dos termos da proporcionalidade. O método é a analogia de proporcionalidade própria, que se enuncia assim: Assim como a essência do número 73 se relaciona com a ordem dos números, assim a essência simbólica da púrpura se relaciona com a ordem das cores.
Para provar esta tese, é necessário analisar a estrutura de ambos os termos.
A Essência do Número 73: Como estabelecido nos artigos anteriores, a essência do 73 não se esgota em sua primalidade. Sua identidade é a de uma unitas multiplex, uma unidade complexa, definida por uma tríade de perfeições:
A Unidade Formal: Sua primalidade, que lhe confere indivisibilidade, incorruptibilidade e identidade na ordem numérica. Este é o seu princípio de ordem e permanência.
A Multiplicidade Constituinte: É composto pelos dígitos 7 e 3, ambos números primos, que podem ser vistos como a “matéria inteligível” da qual sua forma se constitui.
A Harmonia Relacional: A relação entre a sua unidade formal e sua multiplicidade constituinte não é acidental, mas perfeitamente ordenada, pois a multiplicação de seus componentes (7 x 3) revela sua posição hierárquica (21º primo). Esta harmonia é selada pela simetria especular com o número 37.
A Essência Simbólica da Púrpura: De modo paralelo, a púrpura, no sistema simbólico metafísico, não é uma mera cor, mas uma síntese hierárquica:
O Princípio Formal (o Azul): O azul significa as realidades superiores: a verdade, a sabedoria, a ordem celestial, a imutabilidade e a divindade. Corresponde perfeitamente ao princípio formal e incorruptível da primalidade do número.
O Princípio Material (o Vermelho): O vermelho significa as realidades inferiores e ativas: a vida, o sangue, a paixão, a humanidade, o sacrifício e a matéria. Corresponde à multiplicidade constituinte, a “matéria” da qual a síntese se eleva.
A União Harmônica (a Púrpura): A cor púrpura não é um cinza neutro, mas uma nova qualidade que simboliza a união perfeita dos dois princípios. Ela significa a majestade (a união do poder terreno e da ordem divina), a sabedoria temperada (a união da razão e da paixão controlada), e a mediação sacerdotal (a união do humano e do divino). Esta síntese é análoga à harmonia relacional que define a identidade única do 73.
Portanto, a relação da primalidade (princípio formal) com os dígitos constituintes (princípio material) dentro da harmonia do 73 é diretamente proporcional à relação do azul (símbolo do formal/imutável) com o vermelho (símbolo do material/ativo) dentro da síntese simbólica da púrpura.
Respostas às objeções:
Parece que não:
Mas em contrário:
Está escrito no Livro da Sabedoria (11, 20): “sed omnia in mensura, et numero, et pondere disposuisti” (“mas dispusestes todas as coisas segundo medida, número e peso”). Ora, isto significa que a ordem inteligível do universo, fundada no número e na medida, é reflexo da Sabedoria divina que a criou. Se tanto a ordem dos números quanto a ordem simbólica do mundo sensível (como as cores) procedem da mesma Sabedoria, deve haver entre elas uma correspondência ordenada. E, como afirma o Pseudo-Dionísio, a ordem visível é um símbolo da ordem invisível. Portanto, a ordem complexa de um número pode e deve corresponder à ordem significada por uma cor.
Respondo dizendo que:
Deve-se afirmar que a majestade, a sabedoria e a ordem simbolizadas pela púrpura correspondem, de modo eminentemente apropriado, à nobreza e à complexa simetria do número 73, segundo a analogia de proporcionalidade. A validade desta correspondência não se funda numa identidade de natureza, mas numa semelhança de relações (similitudo proportionum).
A essência do número 73, como estabelecido nos artigos precedentes, não é a de uma simplicidade vazia, mas a de uma nobreza complexa e perfeitamente ordenada. Suas perfeições são:
Unidade na Multiplicidade: É um ente único (73), cuja identidade é constituída pela relação intrínseca de dois princípios distintos e primos (7 e 3).
Harmonia Interna: A relação destes princípios não é caótica, mas ordenada a um fim: a multiplicação deles (7 x 3) revela sua própria posição hierárquica na sequência dos primos (21).
Simetria Externa: Sua identidade se completa em uma relação de simetria especular com outro primo (37), cuja posição (12) é o espelho da sua (21), manifestando uma ordem relacional que transcende o próprio número.
Incorruptibilidade Resultante: Sua primalidade, ou seja, sua indivisibilidade, não é a de um ponto sem partes, mas a de um sistema tão perfeitamente integrado que não admite decomposição. É uma nobreza que resulta da ordem, não da ausência de partes.
Ora, a cor púrpura, em seu simbolismo mais profundo, espelha esta mesma estrutura relacional.
Unidade na Multiplicidade: A púrpura não é uma cor primária, mas a união visível de dois princípios cromáticos e simbólicos distintos: o azul (que significa a verdade transcendente, a sabedoria, a paz, o céu) e o vermelho (que significa a vida, a paixão, o sacrifício, a terra).
Harmonia e Sabedoria: A púrpura não é uma simples mistura, mas uma união harmoniosa onde os dois princípios se equilibram. Por isso, simboliza a sabedoria, que é a virtude de ordenar corretamente as coisas, e a justiça, que une a verdade com a caridade.
Majestade Resultante: A majestade da púrpura não vem da simplicidade, mas desta síntese perfeita. É a cor da realeza porque o rei ideal é aquele que une a sabedoria divina (azul) com o poder terreno e o sacrifício por seu povo (vermelho). É a cor da dignidade episcopal porque o bispo une a doutrina celeste com a caridade pastoral. Sua nobreza, assim como a do 73, é uma dignidade que emerge de uma complexa e bem-sucedida síntese.
Portanto, a proporção se estabelece assim: assim como o 73 está para a ordem dos números (sendo uma unidade indivisível cuja nobreza provém de uma complexa harmonia interna e externa), assim a púrpura está para a ordem das cores (sendo uma unidade visual cuja majestade provém da síntese harmoniosa de princípios distintos).
Respostas às objeções:
Parece que não:
Mas em contrário:
Na ordem metafísica, a forma tem primazia sobre a matéria, pois é a forma que dá o ser e a especificidade a uma coisa (forma dat esse rei). Ora, no número 73, a primalidade é o seu princípio formal e definidor, enquanto os dígitos componentes são como sua matéria inteligível. O azul simboliza o princípio formal e imutável, e o vermelho, o material e ativo. Portanto, na cor análoga ao 73, o azul deve ter primazia sobre o vermelho.
Respondo dizendo que:
Deve-se afirmar que a tonalidade da púrpura que é análoga ao número 73 deve, com propriedade, pender para o azul. Para demonstrar isto, é necessário recorrer à distinção fundamental entre a ordem do ser (ordo essendi) e a ordem do conhecimento (ordo cognoscendi), e aplicar o princípio da prioridade do ato sobre a potência e da forma sobre a matéria.
A essência do número 73, aquilo que o define em seu ser mais íntimo, é a sua primalidade. É o fato de ser um número primo que o constitui como uma unidade indivisível e incorruptível na ordem da quantidade discreta. Esta é sua forma, seu ato último, o que o faz ser este número e não outro. As demais propriedades admiráveis – como ser composto pelos dígitos 7 e 3, cuja multiplicação (21) determina sua posição, ou sua simetria especular com o 37 – são propriedades que pertencem a este sujeito já constituído em sua primalidade. São harmonias que adornam e manifestam a perfeição de sua forma, mas não a constituem.
Ora, como foi estabelecido, o azul é a cor que simboliza a verdade imutável, a sabedoria, a constância e a ordem celestial – todas qualidades análogas ao princípio formal e definidor. O vermelho, por outro lado, simboliza o princípio ativo, dinâmico, terreno e gerador, que é análogo aos componentes materiais e suas relações.
Portanto, a cor do 73 deve ser uma síntese que reflita a constituição do número. Deve ser uma púrpura, para mostrar que é uma unidade composta de múltiplos princípios. Contudo, nesta síntese, a primazia ontológica deve ser manifesta. E como a forma (primalidade) tem primazia sobre a matéria (componentes), assim o azul (símbolo da forma) deve ter primazia sobre o vermelho (símbolo da matéria). A cor não é um equilíbrio de iguais, mas uma união hierárquica, uma síntese ordenada onde a multiplicidade dinâmica dos componentes (vermelho) encontra sua perfeição e seu sentido ao servir à unidade indivisível da forma (azul). A cor resultante é, pois, uma púrpura-violeta em que a nobreza e a constância do azul predominam, informando e elevando a energia do vermelho.
Respostas às objeções:
Parece que não:
Mas em contrário:
Diz Pseudo-Dionísio Aeropagita em Sobre os Nomes Divinos, que a beleza e a perfeição de Deus se manifestam no universo não apenas pela simplicidade, mas também pela “consonância e harmonia” das coisas compostas, nas quais a proporção das partes revela uma ordem superior. Ora, o número 73 é um exemplo notável de perfeição por harmonia e proporção interna, não por mera simplicidade. Portanto, sua cor análoga deve refletir esta mesma perfeição composta e harmônica, que não se encontra em cores simples como o ouro ou o azul, mas na união proporcionada que é a púrpura.
Respondo dizendo que:
Deve-se afirmar com a máxima probabilidade que a analogia de proporcionalidade permite concluir que a cor do 73 é a púrpura-violeta de tonalidade azulada. A razão para isto emerge da aplicação rigorosa dos princípios estabelecidos nos artigos precedentes: o método é a analogia de proporcionalidade; e o objeto desta analogia é a essência completa do número 73, que não é a mera simplicidade, mas uma unidade complexa, relacional e perfeitamente ordenada.
A argumentação se dá em três passos:
A necessidade de uma cor composta. Conforme demonstrado (Art. 26), a essência do 73 não se esgota em sua primalidade. Ela inclui de modo determinante a sua estrutura interna (sendo composto pelos primos 7 e 3), sua harmonia posicional (7 x 3 = 21, seu ordinal) e sua simetria especular (com o 37, cujo ordinal 12 é o espelho do 21). Uma cor simples, como o dourado ou o azul, pode ser análoga a uma propriedade isolada (incorruptibilidade ou verdade), mas falha em representar a propriedade essencial do 73, que é ser uma unidade harmônica na multiplicidade. Portanto, a cor análoga deve ser, ela mesma, uma cor que manifesta unidade a partir de uma multiplicidade, ou seja, uma cor composta.
A identificação da Púrpura-Violeta. Dentre as cores compostas, a púrpura-violeta é a que melhor corresponde à dignidade e à estrutura do 73. Sua composição se dá pela união do azul e do vermelho. Na ordem simbólica (Art. 33), esta união não é uma mera mistura, mas uma síntese de princípios metafísicos: o azul representa a ordem, a verdade imutável, a sabedoria, o celestial, o princípio formal; o vermelho representa a vida, a paixão, a matéria, o terrestre, o princípio material. A púrpura é, pois, a cor que simboliza a união da sabedoria com a vida, do céu com a terra, da forma com a matéria. Esta união harmoniosa é perfeitamente análoga à estrutura do 73, onde a forma da primalidade (ordem imutável, análoga ao azul) se realiza numa matéria numérica específica (os dígitos 7 e 3, análogos ao vermelho). Ademais, a nobreza histórica da púrpura (cor imperial e sacerdotal) corresponde à nobreza matemática e à elegância única do 73 (Art. 34).
A determinação da tonalidade azulada. Na relação entre os princípios, a ordem e a forma têm primazia ontológica sobre a multiplicidade e a matéria, pois é a forma que dá unidade e ser ao composto. A primalidade do 73 é o seu princípio formal unificador, que ordena e dá sentido à matéria dos seus dígitos. Sem a primalidade, o 73 seria apenas mais um número composto e suas propriedades harmônicas não teriam a mesma excelência. Portanto, na cor análoga, o princípio simbólico da forma (o azul) deve ter a primazia sobre o princípio simbólico da matéria (o vermelho). Esta primazia não anula o vermelho, mas o integra sob sua regência, resultando não num azul puro, nem num equilíbrio perfeito (um violeta médio), mas numa púrpura-violeta de distinta tonalidade azulada, significando que a verdade imutável (primalidade) é o que governa e aperfeiçoa a sua composição.
Respostas às objeções:
Parece que não:
Mas em contrário:
Está escrito no livro da Sabedoria (7, 22) que na Sabedoria divina há um espírito “único, múltiplo, sutil” (unus, multiplex, subtilis). E o Filósofo, no livro VIII da Metafísica, ensina que a substância é uma unidade composta de matéria e forma, e que a sua perfeição não reside em nenhum dos componentes isolados, mas na união de ambos sob a primazia da forma. Ora, o número 73 manifesta em sua ordem uma perfeição análoga: é uno em sua primalidade e múltiplo em suas propriedades harmônicas. Portanto, sua cor correspondente não deve ser simples, mas composta, e deve manifestar em sua tonalidade a justa hierarquia de seus princípios constitutivos.
Respondo dizendo que:
Tendo percorrido um longo caminho, eliminando os métodos inadequados e refinando os termos da nossa analogia, deve-se afirmar que a investigação rigorosa culmina nesta conclusão: a cor que mais perfeitamente corresponde, por analogia de proporcionalidade, à forma inteligível una e complexa do número 73 é a púrpura-violeta de tonalidade azulada.
A razão para isto não é simples, mas ela mesma é uma síntese de todo o nosso percurso, e se estabelece em três pontos:
A Insuficiência das Cores Simples e a Necessidade da Composição. Como a nossa própria investigação demonstrou ao rejeitar o “Dourado”, e como a objeção ao “Azul Safira” insinua, nenhuma cor simples ou primária pode, por si só, dar conta da essência completa do 73. A sua beleza inteligível não é a de uma nota única, mas a de um acorde perfeito. A sua forma não é apenas a indivisibilidade, mas a harmonia indivisível. Portanto, é necessário que a cor análoga seja, ela mesma, uma cor de síntese e de harmonia, ou seja, uma cor composta.
A Púrpura como a Síntese Metafísica Perfeita. Dentre as cores compostas, a púrpura é a mais nobre e a mais significativa metafisicamente. Ela não é uma mera mistura, mas a união de dois polos simbólicos: o azul e o vermelho.
O Azul, como já estabelecido, é a cor da verdade, da sabedoria, do céu, da ordem imutável e do princípio formal. Ele corresponde perfeitamente à primalidade do 73 e à ordem celeste evocada pelos números 3 e 7.
O Vermelho é a cor da vida, da existência, do sangue, do sacrifício, do princípio material e ativo. Ele corresponde perfeitamente à matéria numérica dos algarismos (7 e 3) que, por sua multiplicação (7 x 3 = 21), “geram” ativamente a posição do número na série.
Portanto, a púrpura é a única cor que significa, em si mesma, a união perfeita de uma forma imutável (azul) com uma matéria ativa e geradora (vermelho). Esta é precisamente a estrutura inteligível do 73. Ademais, a púrpura, como cor da realeza e do sacerdócio, significa a majestade e a sabedoria que emanam desta união, o que corresponde à nobreza e à beleza singular deste número.
A Tonalidade Azulada como Expressão da Hierarquia Ontológica. A forma e a matéria não concorrem para a constituição do ser como dois princípios de igual dignidade. É a forma que dá o ser (dat esse), que unifica, que determina e que eleva a matéria à sua perfeição. A primalidade (a forma, o azul) é o que confere ao composto “73” a sua unidade, a sua incorruptibilidade e a sua nobreza. Sem ela, as demais propriedades harmônicas seriam meras curiosidades numéricas. A forma tem, pois, a primazia ontológica. Esta primazia deve se manifestar na cor análoga. Por isso, a cor não pode ser um violeta médio (onde os princípios se equivalem), nem avermelhada (que daria a primazia à matéria), mas deve ser distintamente azulada, para significar que a verdade celeste e a ordem imutável (Azul) governam, unificam e aperfeiçoam a matéria numérica (Vermelho) sobre a qual incidem.
Respostas às objeções: